umore and architektur
2001

artigo originalmente publicado no website El foco


Umore and Architektur é o título da mostra proposta pelos arquitetos Isay Weinfeld e Marcio Kogan realizada em março/abril de 2001 no Museu da Casa Brasileira. São 11 maquetes, textos e títulos respectivos discutindo um certo “Brazilian way of being”, em que ícones da arquitetura paulistana são exportados para famosos monumentos e cidades do mundo. Esta dá continuidade a uma série de exposições iniciada em 1996 com Arquitetura e Humor e em 1998 com Arquitetura Ornitológica, refletindo continuamente sobre a cidade de São Paulo.

Esta exposição procura discutir uma suposta “normalidade” dos regimes de forças que regem a cidade de São Paulo e o modo de vida de seus habitantes. Regimes da lógica do mercado imobiliário, da propaganda, do marketing, da mídia, das estruturas sociais, das vontades políticas, da postura da sociedade civil etc. Viadutos, excesso de outdoors e cartazes, piscinões, fura-fila, relógios com ‘design’ comemorativos, cingapuras e singapuras, excesso de pavimentação são elementos urbanos que constituem atualmente esta cidade, e aos quais “nos acostumamos”. Ao sobreporem esses elementos a monumentos e cidades mundiais considerados como modelos, ao longo dos textos e títulos dados, a estranheza emerge. A praça Roosevelt serve de referência para pavimentar o Hyde Park de Londres, para que verde? Em “Arco do Triunfo Viário”, viadutos transpassam o Arco do Triunfo em Paris. Através da dissonância desses dois elementos justapostos emerge a ‘anormalidade’ dos nossos viadutos. Os arquitetos operam por sobreposição semântica de elementos e operações urbanas, ressaltando o absurdo da lógica inerente a certas construções e soluções propostas por nossas prefeituras e mercado imobiliário.

Indagados sobre o porquê de exibir tais trabalhos no Museu da Casa Brasileira, um espaço de exposição tradicionalmente devotado à promoção do design, os autores responderam que estes trabalhos não foram aceitos na última bienal de arquitetura refletindo a falta de interesse político do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil) na produção e divulgação de trabalhos críticos especulativos. A exposição neste Museu abre, desse modo, a discussão para um público heterogêneo e não especializado, expondo a surdez de instituições de classe que deveriam refletir acerca da produção do espaço arquitetônico e metropolitano.

Apesar de se tratar de uma reflexão acerca da paisagem urbana paulistana realizada no âmbito do humor e da ironia, a exposição é uma clara tomada de posição em relação ao contexto em que a produção da arquitetura encontra-se nos dias de hoje. Mostra com clareza a crise de valoração do espaço construído na cidade. É rara a expressão de arquitetos que construam e possuam uma atividade crítico-especulativa pública. Nesse âmbito, o trabalho de Kogan e Weinfeld é uma forte crítica aos gestores de nossas políticas públicas e um convite à especulação crítica, a ser continuada por todos os habitantes das cidades, e em especial, pelos seus colegas de classe, os arquitetos.