Situação Copan
2008

originalmente publicado na revista Urbania 3


O Edifício Copan, no centro histórico de São Paulo, foi catalisador de muitos dos projetos, ações e atividades da exo experimental org. – uma plataforma de investigação de práticas estéticas contemporâneas relacionadas ao contexto sócio-político brasileiro, que existiu (atuou ou operou) entre os anos 2002 e 2007, com escritório situado no edifício.

Através da janela panorâmica de uma quitinete no 27º andar do Bloco B – quase 115 metros de altura – se é tomado pela sensação ambígua de distanciamento e de ser absolutamente engolido pela vastidão desta metrópole. O brise-soleil não permite a visão do chão próximo ao edifício, tornando a cidade uma extensão do apartamento, concomitante aos seus rumores ininterruptos. É no piso térreo, na contínua fluidez de circulação da galeria com a cidade – com lojas, bares, ex-cinema e atual igreja pentecostal, cafés e serviços -, num limiar tênue entre os territórios público e privado, que os encontros e confrontos com a metrópole são (re)ativados. Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1951-66), o maior edifício residencial da América Latina opera como um dispositivo do habitar, trabalhar e conviver cotidiano entre seus heterogêneos moradores e transeuntes, inscrevendo-se nas muitas camadas de co-habitação social, econômica e cultural de São Paulo. O Copan marcou uma mudança radical nos modos de morar e na configuração da paisagem paulistana nos anos 1950/60, símbolo da pujança do capital industrial emergente e do ideário do desenvolvimentismo do “país do futuro” que deixava de ser rural para ser altamente urbano. Como nos lembra Jean-Claude Bernardet, é justamente nos anos 60 que surgem dois planos complementares freqüentes nas imagens e filmes da cidade: a visão panorâmica da cidade de São Paulo do alto de edifícios mostrando uma cidade asfixiante, e a de anônimos caminhando “sem rumo” pelas ruas, como em São Paulo S.A., de Luis Sérgio Person.

Os paradigmas modernistas já não correspondem à realidade urbana contemporânea, marcada em São Paulo por desigualdades e segregações sócio-territoriais, uma “urbanização intensa sem cidade” nas áreas periféricas, concomitante às centralidades tomadas por edificações em estilo neoclássico, muros e grades. A Situação Copan é uma das entradas possíveis nas múltiplas tramas sociais da metrópole paulistana. Para além de sua qualidade visual e presença simbólica (no limiar do clichê do cartão postal e do mito Niemeyer para os muitos paulistanos que não o vivenciam), a singularidade do Copan está na pulsação e mútua imbricação entre o edifício e a metrópole, entre distanciamento e proximidade, confronto e convivência, os anos 1950/60 e os atuais. Sua singularidade e experiência nos orientam na prospecção dessa metrópole e de suas tramas, “contorcendo” com suas curvas e certa ironia alguns dos preceitos e entropias paulistanos. Copan + exo como “entre”, “dispositivos-pontes”.

Entre fevereiro de 2003 e outubro de 2006, a exo residências acolheu trinta e três artistas, sociólogos, escritores, cineastas, arquitetos provenientes de várias cidades e países, em quitinetes-studios nos blocos B e F, os mais populares do Copan, onde residiam de um a três meses. Como os apartamentos eram alugados, o programa teve certa flexibilidade e ativamos de um a três apartamentos/residentes, além do pequeno escritório como ponto de encontro e de produção. Os acompanhamentos dos artistas eram distintos conforme os convênios estabelecidos com as instituições envolvidas [1]. E foi com o intuito de gerar diálogos entre artistas e autores, brasileiros e de outras localidades, que a exo convidou diretamente Alejandra Riera (2002-2007), Pablo Leon de la Barra (2002-2006), Tata Amaral (2003), Kazuo Nakano (2002-2007), George Dupin (2003-2005), Paola Salerno (2004-2007), Eytayo Aloh (2004), Sylvaine Bulle (2004-2005) e Peter Friedl (2005-2007), dentre outros, para desenvolverem investigações transdisciplinares e estéticas, como parte dos projetos de médio e longo prazo São Paulo S.A.; África-Mundos e Práticas Documentárias.

Em 2003, Peter Friedl, artista austríaco baseado em Berlim, apresentou pela primeira vez seu trabalho no Brasil, a convite da exo, na exposição A respeito de situações reais, sobre práticas documentárias (Paço das Artes). Iniciamos então um diálogo com o artista. Em maio de 2005 viabilizamos sua residência, com apoio do Goethe-Institut São Paulo. Por quase cinco semanas, Friedl caminhou pela cidade e registrou dezenas de playgrounds. Nós (eu e Cécile Zoonens, co-fundadora da exo, às vezes visitantes ou outros residentes) o encontrávamos à noite e nos finais de tarde, para intensas conversas sobre arte, política, Brasil, etc. Em um mapa de São Paulo, na entrada do escritório, Friedl apontava as diversas “praças públicas” que já não mais existiam e vice-versa – vazios urbanos com parques infantis que ainda não estavam registrados no mapa -, revelando as disparidades entre a cartografia e a experiência da cidade, introduzindo-nos – os supostos “locais” – a lugares e situações novas. Playgrounds consiste em uma série aberta de imagens de parques infantis em cidades no mundo todo, realizadas no decorrer de um longo tempo. Num jogo de repetição e diferença, trata-se de ver o mundo através do parque infantil, como “a arena das primeiras experiências institucionalizadas e realmente ‘públicas’ de pequenos sujeitos. Mas ele é visto como um espaço vazio de experiências, ou melhor, como um espaço de experiências possíveis” [2]. Playgrounds foi o dispositivo de Friedl para aproximar-se de São Paulo neste primeiro momento.

No final de 2005, ele voltou para realizar um projeto específico, definido e acordado no final da sua primeira estada. Foram feitas entrevistas com vinte funcionários do Copan, editadas intensamente ao longo de dois anos. A administração do edifício emprega aproximadamente cem trabalhadores, responsáveis dia e noite pelo funcionamento e manutenção deste complexo residencial. Suas funções incluem faxineiros, encanadores, marceneiros, eletricistas, seguranças, porteiros, secretários. Este mundo é constantemente ativo, em conjunção com o mundo dos moradores, mas, ao mesmo tempo, existe como um mundo paralelo. As perguntas e respostas se concentram na lógica e no processo do trabalho executado, na relação entre trabalho e lazer, detalhes biográficos, memórias e planos de futuro. Publicado em dezembro de 2007, no mesmo mês do aniversário dos cem anos de Oscar Niemeyer, o projeto-livro Trabalhando no Copan [3] buscou investigar este mundo do trabalho, numa localidade particular (da modernidade), explorando as várias possibilidades de representação.

A exo atuou como esse pequeno espaço de experimentação de agenciamentos, abordagens, produção, e de novas formas de apresentação e circulação de práticas estéticas e transdicisciplinares, aplicado a um sítio (São Paulo) e num momento histórico (2002-2007) específicos. Se as cidades são atualmente espaços privilegiados da experiência contemporânea, essas experiências não são nunca universais, mas sim específicas e diferenciadas, conforme a situação social e geo-política dos sujeitos sociais.

[1] As residências funcionaram com convênios ou colaborações pontuais estabelecidos com representações diplomáticas estrangeiras como o Consulado Geral da Franca em São Paulo, o Goethe-Insitut São Paulo, FRAME (Finlândia), Prince Claus Fund, Consulado Geral dos Paises Baixos, dentre outros, e no último ano de funcionamento estabeleceu convênio com o Instituto Cultural Itaú para o projeto Rumos Artes Visuais. São muitos os formatos possíveis de programas de residências pra artistas no mundo todo, e a exo foi uma das primeiras em São Paulo, seguindo o Capacete no Rio de Janeiro, além de iniciativas mais recentes que vêm surgindo no Brasil.

[2] Buergel, Roger M., Peter Friedl Playgrounds 1995-2005, publicado no catálogo da exposição How do we want to be governed? (Figure and Ground), Miami Art Central, Miami 2004. Tradução para português de Alfred J. Keller para o encontro no CEUMA USP, em 22 Junho 2005, como parte do projeto São Paulo S.A.

[3] Friedl, Peter Trabalhando no Copan / Working at Copan, Co-publicação de Kunsthalle Basel (Basiléia) e Extra City (Antuérpia) em colaboração com exo experimental.org (São Paulo)Sternberg Press, Berlim, 2007