panopticon-oligopticon: uma visão sociológica de Paris
1999

originalmente publicado no Boletim Óculum 31

O sociólogo francês Bruno Latour apresentou em fevereiro de 1999 na Architectural Association de Londres uma palestra baseada em seu livro Paris cidade invisível recentemente publicado em parceria com a fotógrafa Emilie Hermant. Iniciando com a questão de como podemos visualizar a cidade, Latour estabeleceu dois diferentes meios de visualização, o panopticon e o oligopticon. O primeiro estaria relacionado à concepção de panorama, totalizante, megalomaníaco e paranóico. Por outro lado, o oligopticon seria o que vemos pouco mas muito bem, o que segue os filamentos, uma série de conexões. “Eu estou interessado no tipo de conexão estabelecida, e não numa visibilidade total”.

Latour expôs as principais características de sua pesquisa relacionada à teoria de actor-network, uma maneira de subverter divisões de ator e sociedade passando a considerar os atores numa rede de relações aberta e negociável, i.e. a rede é estabelecida e sempre modificada pela ação dos atores envolvidos (derivada de monadologia). Os atores podem ser humanos ou não-humanos, considerando que grande parte das conexões são feitas por não-humanos. Dicotomias como local e global, perto e longe, pequeno e grande são substituídas por tipos e número de conexões, “distribuindo o local, localizando o global”.

O que Latour tenta traçar através do oligopticon são exatamente as conexões, as trajetórias desses atores no tempo e espaço. Ele ressalta a importância da “metrologia” para traçar tais conexões, propondo que nós não vivemos numa “sociedade da informação”, mas de trans-formações e associações. Todo transporte sem transformação seria simplesmente um double-click.

Através do oligopticon é possível elaborar, traçar as inumeráveis técnicas que rendem a vida possível aos parisienses, ressaltando a importância dos objetos ordinários, do mobiliário urbano que forma a rede da nossa vida cotidiana e que, por sua acumulação, oferece aos habitantes os meios de percorrer e viver na cidade. Mais do que concepções de panopticon/oligopticon, o que a proposta de Latour traz de fresco é a revisão das noções dos papéis dos atores (humanos e não-humanos) e das relações, criando uma nova concepção de coletividade, ressaltando as potencialidades presentes nas cidades, no caso os potenciais “invisíveis” de Paris.


Bruno Latour & Emilie Hermant, Paris, Ville Invisible. Editora La Découverte, Paris 1998.


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