Modo de vida Aruanda: “ritualizar para construir uma existência”
Ligia Nobre em conversa com o Babalorixá Kabila Aruanda, um relato

In Cadernos de Subjetividade 2015 ano12 n18 PUC São Paulo

O ‘modo de vida Aruanda’ compreende ritualizar para construir uma existência. E, existindo, obter o prazer. Quanto mais eu ritualizo e ressignifico a minha vida, mais eu existo. E existir é ter o domínio da sua verdade, que não é única. E a partir daí, usufruir o prazer, de ser comum.
Imperatriz Cigana dos Mistérios

Aruanda é uma nação, um lugar de livre ritualização do culto aos orixás, mas não é candomblé, nem umbanda. É uma livre escolha, são pessoas contemporâneas, são pessoas urbanas, e que escolheram cultuar os orixás. (…) Os orixás são a natureza, são os elementos que constituem o próprio planeta e constituem o nosso organismo, e tem as graduações todas até chegar aqui nos indivíduos.
Babalorixá Kabila Aruanda

Em 2006, durante a minha residência artística de um ano na Akademie Schloss Solitude em Stutgart, voltei à São Paulo brevemente. No deslocamento radical da intensidade urbana nos trópicos (São Paulo/Edifício Copan) para o isolamento na floresta germânica (Stuttgart/Solitude), conheci naquela semana, por meio de amigos próximos, o então ‘candomblé contemporâneo anarquista’ da Korrente da Alegria de Aruanda. Li os búzios com o Babalorixá Kabila Aruanda, e esse encontro intenso levou-me ao ritual (gira) e senti-me absolutamente acolhida e livre. Um mundo que passou a ser a minha casa, a minha fonte, a minha terra, seja onde eu estivesse. A multiplicidade que eu vivenciara até então no Copan/São Paulo e nos projetos estéticos-políticos urbanos em diferentes países, de certo modo, ampliou-se e tem sido ressignificada nesta ritualística, reunindo natureza, arte e sagrado, contribuindo para dissolver a dicotomia entre moderno e não-moderno, humano e não-humano, natureza e cultura no meu modo de viver. Para cada iaô, uma trajetória específica, seus caminhos e escolhas, uma liberdade em construção, uma lapidação. Esse texto reúne excertos de uma entrevista-conversa que fiz com o mestre Kabila em Julho de 2015.

“A transformação é a ação do novo”
guia Baiano Seu Zé do Koko Verde

A Korrente da Alegria de Aruanda está passando por transformações intensas neste momento. Desvincula-se do candomblé (e de qualquer referência à família e ao catolicismo) e se assume como um modo de vida ou uma nação livre. Continuam o culto aos orixás e as ritualísticas. Mantém-se o vínculo com a origem africana, mas não mais com o escravizado. Com esta transformação e a liberdade que ela nos traz, vem também a responsabilidade maior – individual e coletiva – por essa escolha, de dar conta de tudo isso, de expandir mais.

O mistério e a pluralidade dos orixás, guias, pessoas e narrativas nos afetam e são afetados, junto ao ritmo dos tambores, pontos cantados, danças, ervas, alimentos, roupas, guias e os pontos riscados no chão de terra batido. A Aruanda se organiza por experiências e rituais comuns – incluindo os mitos, as práticas cotidianas, os cantos e os pontos riscado¬s – que são narrativas que redimensionam constantemente a narrativa individual e coletiva. São múltiplos os rituais e ferramentas: as provocações, orientações e proteções dos orixás, da Mentoria e do Babalorixá . Nas giras semanais, a dinâmica é muito ágil, orgânica e imprevisível. Temos os almoços coletivos, o cozinhar, lavar e limpar coletivos; as danças, cantos e celebrações; os alimentos e elementos da natureza; as roupas coloridas e guias individuais; as risadas e as conversas; os perfumes e os sabores; a atenção contínua de si e do coletivo; as aulas e os sermões do mestre Kabila. Temos os encontros filosóficos-giras mensais com o iaô filósofo José Fernando de Azevedo com o mestre Kabila e guias. Reflexões recentes foram sobre os conceitos de ‘nação’ e ‘território’, assim como de ‘modo de vida’ e do ‘comum’, a partir de Epicuro com O Jardim e de Giorgio Agamben com a ‘forma de vida’ dos franciscanos, em relação ao ‘modo de vida Aruanda’. Temos também os colares de poder rezados pelo mestre Kabila; as leituras de búzios e as rezas individuais; as transformações contínuas do lugar a cada visita; as sacológicas, objetos e roupas feitas por Kabila, iaôs e UAP; a convivência intensa entre os residentes da comunidade mais próxima; a construção, manutenção e ritualização do cotidiano; o trabalho constante e intenso de ‘materialização do sagrado’. Como aponta o mestre Kabila:

Nós lidamos com aspectos da psicologia, da filosofia e de outras áreas do conhecimento, junto com uma liberdade muito grande que a arte nos trás e a liberdade de ritualizar a vida. (...) E eu gosto sempre de dizer isso: não estamos aqui para sermos especiais, nós estamos aqui para sermos livres. E se somos livres e temos uma capacidade inventiva muito grande, vamos inventar novos cotidianos, prazeres para os nossos cotidianos. (...) A capacidade do ser humano de se aprisionar é algo aterrorizante. Pra mim, muitas das vezes, as pessoas temem a morte assim como temem a liberdade. Porque quando você tem liberdade, você tem que saber o que você quer fazer com você. O que você quer? O que você quer dizer? O que você quer construir? O que você quer construir nesse momento? Existe um paradoxo muito grande, porque tudo será destruído. Um dia tudo o que você construiu será destruído. E aí, para mim, existe uma chave um pouco filosófica: porque muitas pessoas hoje em dia preferem não ser nada, do que lidar com a dimensão de construir e saber que será destruído.
(...)
Por isso que muitas vezes a dimensão do ritual é você perceber que isso estará impresso no universo de alguma forma. É como o ponto riscado, ele tanto é uma linguagem, como uma constelação. Esse desenho que foi riscado no chão existe em algum lugar do universo, em alguma atmosfera e ele se ressignifica e dá significado pra ritualística naquele momento e vice-versa. E aí é onde essa comunicação acontece e você transpõe as barreiras do tempo como nós as conhecemos.

O mestre Kabila e a Mentoria trazem continuamente a palavra “ressignificar”, e o conceito de que “a base da ressignificação é ritualizar o cotidiano”. A bombogira poetisa Negra Anastácia diz: “Viver ou não viver é um capricho dos homens”. O mestre nos provoca dizendo que “o que é relevante para nós é o existir. Estar vivo é uma coisa de todo ser humano. A partir do momento que ele nasce, é isso, ele está vivo. Existir, enquanto indivíduo e expressão do seu universo, isso é mais difícil, cada vez mais difícil, mas é possível.”

restaurar os indivíduos, restaurar o entorno

O terreiro Korrente da Alegria de Aruanda foi constituído em 2001 pelo Babalorixá Kabila Aruanda. Inicialmente localizado em sua casa e atelier (de figurinos e camisaria) numa vila na Liberdade em São Paulo, o terreiro, desde 2006, situa-se num sítio no Caputera, em Cotia, na periferia oeste da metrópole paulistana. Como o mestre Kabila compartilha, foi a própria ritualística que levou à busca da natureza e de um espaço a partir de alguns critérios reunidos: distância máxima de cinquenta quilômetros de São Paulo; que o terreno não fosse plano (por ele achar monótono) e que tivesse em torno de cinco mil metros quadrados; que o seu espaço de moradia não fosse muito colado ao terreiro, assim como não ter muitos vizinhos próximos. Foram dois anos intensos de busca por esse espaço que atendeu à maioria desses critérios, assim como um valor que ele poderia pagar na época. E, com intercessão da bombogira fundadora do terreiro Dona Maria Gertrudes, em um território onde transitaram escravos, encontrou um terreno – seco, mas com uma árvore de oliveira gigante – no Condomínio Jardim das Cerejeiras, cuja última proprietária chamava-se justamente Gertrudes Maria.

Nesses quase dez anos, ao longo do trajeto de São Paulo para Cotia surgiram favelas, autoconstruções, muros, shopping centers, altas torres em condomínios fechados, mais carros e rodovias, numa urbanização predatória. A mata atlântica próxima ao sítio também está ameaçada. Ao revés, em Aruanda plantamos muitas árvores, flores, ervas e encontramos água. Kabila ressalta que foi muito difícil no começo, por ter encontrado um solo muito pobre, um meio ambiente muito degradado, porém reconhece que foi muito importante para todos da comunidade: “Foi muito importante para o restauro dos indivíduos dessa comunidade, restaurar o próprio entorno. Completaremos agora um trabalho de dez anos de restauro, com muitas árvores plantadas. Aplicando várias ações ambientais, que servem para o ambiente físico da Aruanda e que são muito simbólicas também para os indivíduos que fazem parte dessa comunidade. (....) Porque a preservação desse meio, que é de fato a essência do orixá, é fundamental”.

Esta comunidade de iaôs, composta de indivíduos contemporâneos, que moram em São Paulo ou noutras cidades e países, foi se reconfigurando em torno deste novo epicentro na natureza. Kabila se mudou com Gisele Peixe, museóloga e parceria de Aruanda, no início como mãe-grande do terreiro e atualmente Ialorixá. Eles foram se relacionando com os poucos vizinhos do entorno imediato, e amizades fortes foram sendo construídas, principalmente com o Anderson Correia, pedreiro e mestre de obras, assim como com a Irani Alves, costureira, que escolheu ser iaô de Aruanda também. Ambos tornaram-se colaboradores fundamentais do Kabila, seja na feitura das vestimentas dos orixás, entidades, iaôs, e de figurinos e ambientações para projetos artísticos, seja nas obras e construções contínuas na Aruanda e no entorno, compostos majoritariamente, e por princípio, por materiais doados, como reinserção desses materiais. Junto ao terreiro, Kabila construiu um grande hangar-ateliê com e para a comunidade dos iaôs e criou a Usina da Alegria Planetária/UAP.

Em poucos anos, vários iaôs começaram a se mudar para o entorno da Aruanda, adquirindo terrenos, reformando e construindo suas casas. Atualmente, quinze adultos, mais crianças e adolescentes, moram em nove casas na Aruanda e no entorno imediato. Aos nos aproximarmos, é lindo encontrar roupas e tecidos coloridos pendurados nas cercas de arame dos terrenos, criando como que um campo magnético e imagético. No terreno de verde abundante e diverso, com dois pequenos lagos construídos para Yemanjá e Oxum, os elementos da natureza ‘materializam o sagrado’ dos iaôs, guias e orixás do terreiro, em meio às ‘casas’ (altares) de cada orixá e exus (guias), construídos pelos artistas de Aruanda. Objetos os mais diversos, coloridos, de múltiplos tempos, espaços e histórias são ressignificados como ex-votos nas construções, e entremeados, pendurados nas árvores. Provocações de Aruanda em estêncil, como “Tudo é possível para quem é livre”, “Vista Sua Existência”, “Ouse Antes de Usar”, seja nas roupas, no chão, nas paredes ou nas portas, sinalizam este território singular. Humanos e não-humanos em contínua transformação. Em Aruanda, orgânico é “organizar o caos”. Já temos uma horta linda de ervas cuidada pela Ialorixá, e começaremos a cultivar alimentos em breve.

Com atuações diversas e múltiplas como pedreiro, costureira, esteticista, cineasta, ator, diretor de teatro, ambientalista, terapeuta, artista, figurinista, arquiteto, produtor, museóloga, músico, etc. os residentes convivem e constroem continuamente um “modo de vida Aruanda”, que se expande por todos os iaôs:

Foi um dos maiores presentes que eu tive como mestre. Porque quando eu mudei pra cá, sinceramente eu não imaginei que outras pessoas fossem morar nesse entorno. Viemos eu e a Gisele. Como indivíduos de uma tribo, índios urbanos, indivíduos de várias nações que se reencontraram e decidem morar em torno de um mesmo epicentro energético, de um mesmo espaço. E isso fortaleceu a comunidade como um todo. O fato de alguns indivíduos escolherem morar em torno do terreiro, e agora do terreiro e da Usina da Alegria Planetária, que é um ateliê compartilhado, deu uma outra dimensão para esse grupo como um todo. Porque as pessoas que moram na cidade sentem-se extremamente bem acolhidas, e sabem que o núcleo da sua tribo está preservado. Isto realmente nos levou para um outro lugar. E agora, estamos dando passos mais planetários, como a ida à Genebra.

Liderados pelo Babalorixá e artista Kabila, a Aruanda é um território livre, com ações compartilhadas pelos iaôs, como o Marcos Soares que é o zelador da Aruanda, que cuida da manutenção cotidiana dos espaços construídos, dos múltiplos usos e da natureza, e a Ialorixá Gisele, com a colaboração de outros iaôs, como a Andora Abuhab, ambientalista, para outras demandas e cuidados do terreiro e seus iaôs. Acabaram os cargos, principalmente nas giras-rituais, com suas responsabilidades especificas, e essas tarefas se distribuem mais organicamente. Custos básicos de manutenção do terreiro são compartilhados por todos os iaôs, assim como por doações especiais, e custos de infraestrutura do entorno, seja de construção ou de manutenção, são em parte compartilhados pelo núcleo dos residentes. Temos uma atenção especial ao que consumimos e descartamos no terreiro e na vida cotidiana de cada iaô.

Os cafés da manhã costumam acontecer na casa da Gisele, e os almoços coletivos são feitos na cozinha do terreiro, da UAP ou na casa de um dos membros da comunidade, com contribuições de comidas e custos distribuídos. Aos sábados acontecem as giras (rituais), que começam a ser preparadas na quinta e sexta, e às vezes se estendem até domingo, e com demandas cotidianas na semana, do lugar, dos iaôs, dos projetos artísticos e tantos outros, como o mestre Kabila compartilha:

Eu já tive um cotidiano em São Paulo, nesses anos que eu morei no centro, muito estressante, com muitas demandas. Eu continuo tendo demandas, mas esse contato com a natureza me trouxe um cotidiano, uma certa rotina livre. Uma rotina livre, porque eu tenho muitas liberdades de escolha. Geralmente eu acordo sempre no mesmo horário, eu não durmo muito tarde. Eu aprendi aqui a gostar do dia, a aproveitar o dia. Então, existe esse espaço de interação com as pessoas, existe um espaço meu de criação, existe um espaço de desenvolvimento desses projetos que fazemos. E, respondendo por mim, fui levado a ressignificar essa dimensão do próprio cotidiano, eu ainda continuo me acostumando com a isenção da ansiedade. Então, eu estou para o dia, para o próprio tempo, e ele também está para mim. Como nós falamos aqui de uma vida orgânica, muitas vezes existem situações que nos atravessam, não de uma forma negativa, aí eu abro mão do que eu havia projetado para aquele momento e vou fazer uma outra coisa. (...) E uma palavra que eu gosto muito é ‘acolhimento’. Eu costumo estar sempre muito disponível pra acolher as demandas e os movimentos que o dia traz. E aqui é um território de acolhimento. Em alguns momentos eu preciso realmente parar o que estou fazendo, como agora, para conversar com alguém e pra nutrir aquela semente humana, pra que ela possa se desenvolver. E pra isso temos que ter liberdade.

Kabila Aruanda realizou seu desejo de construir esse grande hangar-atelier para ele, sendo base também do coletivo Usina da Alegria Planetária/UAP, e por consequência lugar do fazer, a ser apropriado pelos iaôs, comunidade, convidados e interessados, para produção e experimentação de indumentárias, figurinos, objetos, mantas, tapetes, sacológicas, colares, e outros para cinema, teatro, ambientações, projetos artísticos. Tem também marcenaria, serralheria e salão de beleza (‘Usina Beauty’) e muitos outros usos, com a ressignificação dos materiais doados, que se não usados após um tempo, são reencaminhados para outros usos. A UAP se define como “um coletivo de artistas livres focado na criação, produção, difusão e intercâmbio de ideias, ações e projetos artísticos sustentáveis através da reinserção e transformação de materiais, indivíduos e seu entorno (...) oferecendo soluções singulares na produção de objetos, ambientações cenográficas e indumentária, além de fomentar a experiência artística coletiva com workshops de criação, pesquisas, performances, intercâmbios culturais e trocas de saberes.”

São múltiplos os encontros e práticas da Aruanda/UAP, como a atual parceria de Kabila Aruanda com a artista performer brasileira Clarissa Alcântara, a convite da antropóloga Barbara Glowczewski para a performance Cosmocoleurs et Fureur (Cosmocores e Fúria) na exposição-evento A Besta e a Adversidade, em agosto de 2015 no Museu de Arte Contemporânea de Genebra, Suíça: “eu estou levando uma performance dentro da ritualística, que envolve o transe, mas o transe como catarse, e a arte como natureza”. Reforçando a apresentação da UAP da “nossa experiência, praticada há quinze anos, propondo uma alternativa de coletivo que integra a produção artística e a relação com o sagrado como modo de vida. A convivência em comunidade dá-se como uma construção cotidiana, tendo como fundamento a liberdade e diversidade dos indivíduos.” Projetos como Terapia da Imagem, dentre outros, e residências artísticas e oficinas tem sido desenvolvidas nos últimos anos, abrindo cada vez mais a Aruanda e a UAP para novas convivências, residências, encontros, ações locais e internacionais:

Como nós temos ao mesmo tempo um lugar que é muito atemporal, as pessoas podem vir visitar e passar por um ritual e serem tocadas, como quem vai a um espetáculo de teatro, podem vir e passarem dias, podem vir e fazerem suas residências artísticas, e é inevitável, elas de alguma forma se envolverem com a nossa ritualística. Então, é colocar a arte na dimensão do sagrado, e o sagrado na dimensão da arte. Sem paredes, sem protocolos, sem pudores, e sem o profano. Isso é fundamental na nossa comunidade, o profano não existe.
(...)
Nós buscamos o máximo de isenção de julgamento. Se fizermos um paralelo com uma obra de arte (...) existem muitas formas de você visualizar e se debruçar sobre uma obra de arte, porém você não julga uma obra de arte, no meu entendimento. Você pode ter uma crítica muito feroz sobre a atitude do artista ou sobre o resultado do processo do artista, mas você não julga. (...) Você pode criticar, mas a partir do momento que você julga, você tolhe o artista da liberdade e isto é inaceitável.
(...)
Transformar o ritual, desdobrar o próprio ritual, que já teve uma história principalmente, sobretudo no Brasil, uma história tão dentro de guetos, e tão fechada dentro de seus terreiros, de seus candomblés, e lógico e existe um porquê disso, é fundamental para preservação da tradição e pra manter a própria mística do ritual, e esse mistério todo que se dá em volta do culto aos orixás. E pra mim isso é de extrema relevância. Porém, como somos indivíduos muito contemporâneos, e eu sendo um artista e liderando um grupo tanto religioso quanto artístico, [é] levarmos, transcendermos esse espaço e essa ritualística, estetizarmos isso de alguma forma, e nos comunicarmos com fora daqui.

“bons indivíduos fazem bons coletivos”

As coisas sempre se dão em várias camadas. E, o que pra mim, nós carregamos de mais primitivo da ritualística africana dos orixás, é justamente viver em comunidade. Porque elas nascem de uma necessidade de um coletivo, de ritualizar, ritualizar as suas conquistas, a sua colheita, e o seu próprio cotidiano. Porque, quando você vê a mitologia dos orixás, na sua grande maioria, eles foram humanos ou tem muito verossimilhança com questões do cotidiano. Então, ter bens materiais, construir uma casa, traição, dívidas, assuntos que fazem parte absolutamente do cotidiano de uma comunidade. E isso se divide, na África, em pequenos povoados, em reinos, ganham dimensões grandes, médias, pequenas. E é uma outra forma inclusive de conceber as questões familiares, que é muito diferente da nossa ocidental, que é muito mais ligada a uma herança medieval, uma herança sobretudo católica, cristã e judaica, que é a base da nossa formação.

O terreiro compõe-se por Kabila Aruanda como mestre babalorixá, o exu-orixá Seu Sete Portas como o novo mentor espiritual do terreiro, com os orixás, entidades/guias e almas [espíritos] da chamada ‘Mentoria’, que reúne também os panteões ¬– de orixás, guias e almas – de cada iaô (aproximadamente cinquenta), incluindo a Ialorixá e o zelador. Uma vida tribal com indivíduos contemporâneos, em comum. Aqui, os orixás já foram humanos (com algumas exceções) e são resultado do método Aruanda, conforme aponta o Babalorixá. Eles conhecem o universo da matéria, por terem sido humanos, e passaram por um processo de evolução, que o levaram a ser representantes de um elemento da natureza. No universo do sagrado de Aruanda, Oxossy é a mata, Oxum é as águas doces, a cachoeira, o ouro e a energia solar, Ossanha é o universo das ervas, Ewá é a folha, Yemanjá é as águas do mar, dentre outros.

Alguns iaôs estão desde o início da Aruanda, outros saíram ou chegaram, em processos contínuos, individuais e coletivos, de transformação. Os espíritos também evoluem, se transmutaram em partículas estrelares, guias em orixás, alguns vieram e não se adaptaram e foram embora, envelheceram e outros chegaram mais recentemente. Pessoas, guias, almas, espíritos, orixás, todos em transformação. Pessoas e espíritos atravessam, convivem, visitam pontualmente, relacionam-se livremente com a Aruanda. Porém, quando o terreiro ainda era na cidade, vinha muita gente na gira, e o Kabila incomodava-se um pouco com a quantidade, como ele aponta: “Eu nunca gostei desse coletivo massificado, e era uma quantidade que já me incomodava um pouco, porque eu não podia fazer meu trabalho de individualizar o ser, para ele depois se reinserir no coletivo. E a minha frase ‘bons indivíduos fazem bons coletivos’.”

A Aruanda tem sua linguagem e seus usos próprios de palavras e termos, e é essencial o cuidado para situá-los em relação a outros discursos, pensamentos e contextos. Particularmente neste contexto de Cadernos de Subjetividade, em relação ao termo “indivíduo” . “Na Aruanda a primeira comunidade é o próprio eu. O indivíduo sempre será uma coletividade”, como aponta a guia Imperatriz Cigana dos Mistérios. O ‘modo de vida Aruanda’ tem a alegria como forma de fazer política. O indivíduo é compreendido como aquele capaz de inventar-se continuamente, capaz de se atualizar e se reconhecer a cada escolha, e cuja verdade se produz a partir de critérios (como resultado do conhecimento no plano da experiência, portanto do próprio modo de vida) , e não é o da ‘vida nua’ ou aquele que segue protocolos, padrões e fórmulas. Cada iaô tem a sua linguagem, com o desafio de aprender a comunicar-se cada um com a sua linguagem, como coloca o mestre Kabila:

Muitas vezes as pessoas querem colocar o lugar da ritualística dentro de padrões ou fórmulas estéticas, e isso pra mim é muito questionável. (...) Existe uma coisa que eu retomo, e que eu gosto muito, é nos distanciarmos das questões da Corte. Nós vemos isso em vários lugares do Brasil, e dentro de muitos candomblés e umbandas. A partir do momento em que a Ialorixá, os seus iaôs, as pessoas que ritualizam os orixás, usam grandes saiotes com anáguas por baixo, isso é uma herança da Corte. Enquanto o falar e sobretudo cantar Iorubá, perpassam todo esse tempo – e é incrível essa manutenção da tradição – outras coisas são absolutamente aculturadas. Então, o uso do plástico, de materiais muito sintéticos e principalmente esses signos que são sociais, familiares e são herança de uma Corte. E aqui a arte tem uma força muito grande, da arte como afirmação do indivíduo e suas ações, e a estética de tudo isso. Ela não se prende, ela é um exercício de grande liberdade, ela não vai se prender a determinados signos, ela pode buscar comunhão com muitos signos, mas ela não vai se prender, se fixar.

Foi sendo desenvolvido desde o seus primórdios, pelo guia preto velho Vô Geraldo e a Mentoria junto com o mestre Kabila, o ‘método Aruanda’, que baseia-se na pirâmide triangular do pensar, agir e sentir ao mesmo tempo, visando o prazer como resultado, como presença da individualidade e o domínio da própria verdade. Como coloca o Babalorixá: “Porque se tudo é tão efêmero, e se a morte é eminente, você não viver para o prazer é uma coisa que não faz sentido nenhum pra mim. Temos que viver para o prazer. Porque somos seres muito sensoriais, inventivos, criativos. (...) E o prazer está muito dentro da dimensão da multiplicidade.”

O método reúne práticas, a ritualística dos orixás, que pra nós simbolizam os reinos da natureza, e fazemos aí uma ponte com a nossa própria natureza humana. (...) A questão é como individualizar esse ser humano, que também é dar-se conta do seu coletivo individual. Isso é um pouco complexo. (...) A ritualística dos orixás, a base pra mim, no meu conceito, é a materialização do sagrado. Então, assim como as práticas ambientais, ela ajuda a ressignificar o indivíduo, o seu meio e o coletivo onde ele se insere. E é fundamental a dimensão do ressignificar, e onde a arte tem um apelo estético que é fundamental. (...) A Aruanda vive em constante movimento dentro desse método, que nós chamamos de método de convívio dentro e fora da ritualística do terreiro em si. É dado aos integrantes de Aruanda uma liberdade a máxima possível. Porém, existem signos que nos identificam, e nos conectam a dois pontos fundamentais: à nossa origem e a uma conexão com o planetário.

E ele acrescenta:

Existe uma frase que nós falamos aqui, que “toda ação gera uma consequência”. E uma das dimensões da liberdade é lidar com as consequências dos atos. E, se levarmos pra dimensão do artista ou de um líder religioso, por exemplo, o resultado estético, as ações, aquela performance, ou a doutrina, ou seja, as palavras de um mestre, essas ações vão gerar uma consequência, dentro desse coletivo e algumas vezes dentro da sociedade, e aí sim, precisamos lidar com isso. Então, essas duas dimensões, tanto o sagrado quanto a arte, são precedidas, muitas vezes, de grandes provocações. O próprio agir com liberdade é uma coisa que provoca por si só dentro de um mundo tão oprimido e com tantas questões que são visíveis no nosso mundo de hoje. E nós fazemos um movimento que não é nos afastarmos do mundo contemporâneo, não é nos isolarmos – não estamos numa ilha – mas é interagir com liberdade, o máximo possível, para que possamos também ter o direito de sermos, de transitarmos por esse mundo todo. Então, o nosso método não visa nos isolarmos, mas justamente levarmos a nossa liberdade para as relações, para o planeta. Então, mesmo tendo um grupo de cinquenta pessoas, relativamente pequeno, essas pessoas tornam-se agentes muito poderosos dentro de uma sociedade. (...) A política das escolhas pra mim é fundamental.

Kabila Aruanda (Alexandre Cunha) é Babalorixá, mas também artista, figurinista, estilista, consultor e diretor artístico do longa-metragem Rendas no Ar (de Sandra Alves). Criador de um método singular, denomina sua prática de ‘Modo de vida Aruanda’, do terreiro Korrente da Alegria de Aruanda em Cotia, São Paulo – um lugar de livre ritualização do culto aos orixás. Kabila criou, com a ajuda de seus iaôs, a Usina da Alegria Planetária/UAP, coletivo multidisciplinar que reúne arquitetos, designers, artistas, educadores e pesquisadores, promovendo a criação livre, a produção e a gestão de projetos artísticos voltados à reinserção sustentável e a transformação de materiais, de sujeitos e seus ambientes. Site da UAP em: www.usinadaalegriaplanetaria.com.br