mano fato mano
2015

Proposta Curatorial de Ligia Nobre e Carol Tonetti para Programa de Exposições 2014 - Centro Cultural São Paulo

MANO FATO MANO instaura um espaço de reflexo e reflexão, permitido e ativado por desenhos e ações que informam o cotidiano nas cidades, particularmente, na cidade de São Paulo. São desenhos que ativam e registram ações, que revelam, que criam deslocamentos, e que trazem para o universo gráfico a potência da ação de realizar coisas. Operam como ferramentas de manifestação, manipulação, conflito, expressão e comunicação.

Elaborado de modo experimental-colaborativo pelo grupo do projeto – Cláudio Bueno, Carol Tonetti, Ciro Ghellere, Ligia Nobre, Vitor Cesar – e junto com a equipe do Centro Cultural São Paulo, MANO FATO MANO compreende exposição, linguagem visual, site — manofatomano.net —, publicação, ações e conversas, onde usos comuns ao CCSP são acolhidos e incentivados. Assim como no brinquedo gira-gira — cuja força motora é gerada individual e coletivamente —, o girar permite um caleidoscópio de perspectivas e usos. A exposição articula [séries de] trabalhos da Coleção de Arte da Cidade — de Antonio Lizárraga, Gladys Maldaun, Guto Lacaz, León Ferrari e Marcos Troncoso —; contrapostos a trabalhos convidados — de Ciro Ghellere, Claudio Bueno e Cristiano Rosa, Diogo de Moraes, Raphael Escobar e Vitor Cesar. Cada trabalho tem um suporte específico, diverso, potencializando múltiplas relações, visualidades e atravessamentos entre espaço expositivo, edifício e cidade.

Guto Lacaz revela nossos gestos curtos, banais, cotidianos, quase invisíveis, e autômatos na série de serigrafias Pequenas Grandes Ações (2003). Ele coleciona e amplia exponencialmente as figuras de mãos, setas e objetos das instruções de uso de artefatos industriais subvertendo e deslocando estes símbolos da vida moderna para uma dimensão poética. Paralelamente, os itinerários diários e a proliferação de ícones e logomarcas que povoam a paisagem contemporânea de São Paulo instigam Diogo de Moraes à prática compulsiva de anotar impressões e pensamentos nos seus chamados "desenhos de percurso", compondo o Catálogo de estampas (2014).

Dando a ver a “arquitetura da loucura” dessa metrópole-laboratório, León Ferrari realizou em seus anos paulistanos desenhos e heliografias de plantas arquitetônicas e situações urbanas distópicas. Com uso de estampas Letraset de figuras humanas, mobiliários e carros, pedestres se embatem no Cruzamento (1982), ou são preteridos a multidões de carros em anéis rodoviários em Passarela (1982) e Autopista del Sur (1982), enquanto paredes e mobiliários configuram espaços labirínticos em Bairro (1980/s.d.). Nos desenhos de Antonio Lizárraga, da série Itaim Bibi/ Vila Olímpia/ Margem Sul (1996), as narrativas geométricas abstraem e distanciam a compreensão das relações empregadas na especulação sobre o território, que dá nome à série. Ambos exploram a projeção ortogonal, ou vista superior do desenho arquitetônico, como deslocamento e reflexão das estratégias de ocupação do espaço urbano.

Em Acervo (2014), proposto por Raphael Escobar, o processo de inscrever mensagens e símbolos em vidros – comum em vitrines de lojas e janelas de ônibus, trens e metrôs de grandes centros urbanos – ganha nova dimensão ao convidar os funcionários e frequentadores do CCSP a riscar com pedras (de afiar facas) os vidros frontais da Sala Tarsila do Amaral. O vidro é transformado em uma zona de alteridade cuja sobreposição de riscos aos poucos apaga a visão da exposição, questionando também como se constitui um acervo da cidade. Inesgotáveis (2014), de Ciro Ghellere, através de textos e de fotos em tubos de esgoto espalhados no espaço expositivo, convida o visitante a atribuir diferentes legendas às imagens e novas imagens às legendas, provocando a observar e refletir sobre a urbanidade e o cotidiano.

Os desenhos de Marcos Troncoso ecoam as manifestações populares sob violenta repressão policial durante o período de transição política da ditadura militar para a democracia no Brasil. Violência urbana, uma realidade social (1979) atualiza o constante embate pela ocupação democrática do espaço público nas cidades. Enquanto Gladys Maldaun, em Momentos da Construção do Centro Cultural São Paulo (1982), desvela paradoxalmente as condições precárias de trabalho dos operários da construção civil no canteiro de obra. Condições que se perpetuam até os dias de hoje, em que o saber e o fazer manual são postos entre a liberdade de criação e a violência de sua exploração.

Vocabulário para repensar a cidade (2004-2014), elaborado por Vitor Cesar, reúne termos e expressões que se referem à cidade, ao urbanismo ou à arquitetura para nomear exposições, projetos, publicações ou conceitos no meio artístico. A presente edição materializa-se como um conjunto de peças baseado na ergonomia e nas proporções (e desproporções) da experiência do corpo diante dos mobiliários urbanos. O trabalho Corpo-Circuito (2011) de Claudio Bueno e Cristiano Rosa adquire novas nuances em MANO FATO MANO. O dispositivo sonoro de ação coletiva, ativado pelo contato físico entre os corpos dos visitantes da exposição, nos sugere perguntas, como: Que tipo de contato, de ação, de embate ou de atrito, esperamos dos demais corpos e relações com a cidade?

O Centro Cultural São Paulo destaca-se na cidade como um equipamento singular capaz de acolher uma programação diversa, usos e públicos heterogêneos. Muitos destes usos consolidam-se em territórios demarcados que se estruturam tanto de maneira informal _ acordados pelos grupos frequentadores_ quanto através da mediação da Instituição. Assim, estudar, jogar xadrez, dançar, descansar, ou visitar exposições, configura comportamentos e protocolos específicos – explicitados ou não – nas relações cotidianas entre os diversos frequentadores, visitantes, funcionários, programação, edifício e cidade.
MANO FATO MANO é a primeira experiência contemplada como Proposta Curatorial a partir da “Coleção de Arte da Cidade” dentro do Edital Programa de Exposições 2014, abrindo-se a inúmeras possibilidades de articulação deste acervo público. Como ressalta o documento do Edital: “cotejada à história da cidade a composição da coleção municipal enseja, assim, não só sua leitura estética, mas é também reveladora da ação do poder público municipal frente à produção artística visual”.

Assim, expor parte dessa Coleção no CCSP, instiga ainda mais a definição e escolha de critérios de reflexão, ação, construção, espacialização, experiência e publicização das obras. Desta forma, MANO FATO MANO tem como premissa pensar-se como uma plataforma, uma exposição-projeto, debatida em conjunto com um grupo de artistas, arquitetos e equipe do departamento de artes visuais do CCSP, numa tentativa de aproximar e estabelecer interlocução com circuitos diversos.

São muitas as possibilidades de aproximação a esta exposição realizada na Sala Tarsila do Amaral, de 15 Novembro de 2014 a 22 fevereiro de 2015. O recorte temporal de escolha de séries de obras das últimas três décadas, coincidente com os 31 anos da instituição se reorganiza a partir de quatro vetores: cotidiano, desenhar, cidade e agir, aproximando públicos heterogêneos, com suas diferenças e continuidades. Como propõe Diogo de Moraes, “a imagem para esse modus operandi pode ser a de uma pista de decolagem... como se a engrenagem cultural e social corporificada pela exposição só conseguisse funcionar efetivamente a partir da disposição de seus proponentes e envolvidos de se deslocarem e, a depender dos públicos produzidos pela exposição, do desejo por alçarem voos para destinos não previstos no escopo inicial do projeto”.

Somadas as experiências espontâneas e cotidianas aos trabalhos e o espaço expositivo, as ações “programadas” destacam-se ao criarem deslocamentos potentes: seja nas oficinas integrantes do programa Recreio nas Férias com a Ação Educativa do CCSP - que ativaram a arena-arquibancada e o espaço expositivo (Bumerangue com crianças do CEU Quinta do Sol e Diogo de Moraes, e Nome das Coisas com adolescentes do CEU Azul da Cor do Mar com Ciro Ghellere) - seja nas inscrições contínuas nos vidros realizadas por Escobar com os frequentadores locais, ao “discutir o pertencimento daqueles que fazem o CCSP ser constituído como espaço público cultural.” Como atenta Raphael Escobar a partir da sua experiência: “partindo da premissa de que a possibilidade de pertencimento de um espaço, em que haja uma frequente convivência, seja justamente a possibilidade do indivíduo se eternizar nesse espaço, Acervo tenta por diversas formas, discursivas e estéticas, pensar os patrimônios “públicos” e alargar relações em todos seus sentidos.”

Em uma experimentação pública por essência, coletiva e em pequena escala, MANO FATO MANO articula e ativa vetores da cidade, do cotidiano, do desenho e da ação que deslocam e inventam mundos outros.