Guggenheim-Rio é visão estereotipada do Brasil
2003

originalmente publicado na Revista Número #4


A Fundação norte-americana Solomon R. Guggenheim ampliou na última década suas atividades pelo mundo com um sistema de franquias, hoje presente em cinco cidades – Nova York, Veneza, Berlim, Bilbao e Las Vegas. A unidade emblemática desta franquia, o Museu Guggenheim Bilbao inaugurado em 1997, pode ser considerada o ápice do “objeto arquitetônico irrepetível”, direcionado ao universo midiático mais do que ao mundo real.

As formas curvas e tortuosas revestidas com titanium e em escala grandiosa, construídas pelo arquiteto norte-americano Frank Gehry, aceleraram a ciranda de uma ‘arquitetura de museus’ fotogênica produzida por “arquitetos-estrelas” em escala mundial [1]. O edifício mais significativo passou a ser disputado pelas instituições, e não mais a coleção em si, resultando em museus que são “só paredes” sem verbas para gestão, aquisição de obras ou pesquisa. O Guggenheim Bilbao inflacionou a concepção homogênea de governos e empresas sobre o papel dos equipamentos culturais de grande porte nas ‘revitalizações’ das cidades; i.e. como “objetos surpreendentes”- uma marca que circule na mídia “garantindo” a inserção daquelas no mercado global.

Com o suporte reduzido dos governos europeus e norte-americanos às artes e o envolvimento do capital privado cada vez mais rarefeito, os museus assumiram -ao mesmo tempo que competem no mercado- uma similaridade operacional, programática, formal e de inserção urbana de enclaves com os shopping malls e complexos de entretenimento, a exemplo de Bilbao. A organização espacial do museu, com um átrio central que concentricamente conecta as galerias nos três andares por um sistema de escadas tortuosas e elevadores panorâmicos, em pouco se difere dos complexos de entretenimento de Jerdi Partnership, i.e. a arquitetura como organizadora e controladora de fluxos e consumo. Gehry está preocupado com os “efeitos espaciais” de sua arquitetura, com resultados muito semelhantes à “experiência espacial” descrita por Jerdi, como uma atração per se, promovendo o consumo de bens, life style e do próprio espaço. [2]

As butiques de luxo estão cada vez mais similares aos museus e galerias de arte. Por exemplo, a grife italiana Prada recentemente ocupou o endereço do Guggenheim-Soho em Nova York com projeto do arquiteto Rem Koolhaas/OMA (autor das duas unidades Guggenheim em Las Vegas – 2001) com uma loja que pretende também se dedicar a atividades culturais, mais próxima de um espaço temático semi-privado do que de um espaço alternativo semi-público.

No momento em que o Guggenheim apresenta franca retração de sua política de brandinge franchise nos EUA e Europa, e Bilbao esgotou este modelo do objeto arquitetônico com características únicas de orientação transnacional e midiática, dado o excesso de circulação da imagem numa industria de identidades intercambiáveis sempre em busca de novidades, e a perda de realidade e contato com o contexto local, a Fundação insiste numa unidade no Brasil.

O Guggenheim é mais um elemento do “padrão liberal de planejamento urbano” que prevalece há tempos na cidade do Rio de Janeiro [3], com o intuito, no caso, de ‘revitalizar’ a região portuária.

O projeto, apresentado pelo “arquiteto-estrela” francês Jean Nouvel em fevereiro de 2003, é composto por volumes dispersos em 42 mil m2 de área submersos no Pier Mauá (sim, abaixo do nível do mar na Bahia de Guanabara), com salas de exposição, “pirâmides”, espelhos d’água, uma floresta tropical invertida com cachoeira a 30 metros de profundidade. No extremo oposto do pier uma torre cilíndrica gigante em aço-corten abriga um restaurante panorâmico e uma cobertura em forma de nuvem, de onde se avista ao longe a cidade “cartão postal”. [4] Acrescenta-se a isso o elemento emblemático do projeto: uma lâmina branca que separa o Museu da malha urbana local, uma barreira/ vitrine para o anúncio de eventos e patrocinadores, negando a cidade real marcada por desigualdades sócio-territoriais.

O projeto para o Guggenheim-Rio exacerba a condição museu-shopping-parque temático ao sintetizar os estereótipos dos trópicos do europeu colonizador e do “melhor das férias tropicais” do norte-americano num território latino-americano. Suas dimensões megalômanas e parasitárias no contexto institucional / urbano/ cultural frágil e precário brasileiro configuram-no como um “grande naufrágio anunciado”5. O projeto arquitetônico de Nouvel é um índice que cinicamente explicita as lógicas intrínsecas às ações políticas da Prefeitura do Rio, da Fundação Guggenheim e dos outros atores e forças envolvidos.

[1] Arantes, Otilia in Urbanismo em fim de linha, EDUSP São Paulo 1998, e “Uma estratégia fatal” in A cidade do pensamento único, editora Vozes, São Paulo 2000

[2] Não por acaso, a Disney comissionou Ghery tb. Mais info in Guide to Shopping, project on the city 2, ed. Rem Koolhaas e outros, ed Taschen EUA 2000

[3] Detalhes in Vainer, Carlos B. in “Os liberais também fazem planejamento urbano?” in A cidade do pensamento único, editora Vozes, São Paulo 2000

[4] Mais informações sobre o projeto in revista AU, Jjunho 2003, ed. Pini, São Paulo, pp. 42-47 . Otavio Leonidio fez uma analise esmiuçada do projeto arquitetônico de Jean Nouvel in www.vitruvius.com.br

[5] informações e dados in site Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br) e e-mails distribuídos via internet. Análise da viabilidade do Museu Guggenheim: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/03/249807.shtml

No Brasil, após a disputa entre algumas cidades, foi assinado um protocolo em outubro de 2000 entre a Associação Brasil + 500, atual BrasilConnects, e a Fundação Guggenheim prevendo a construção do museu na cidade do Rio de Janeiro. Em abril de 2003 a Prefeitura firmou um contrato com a Fundação baseado num estudo de viabilidade no Píer Mauá e numa proposta do arquiteto francês Jean Nouvel. Ações públicas contrárias ao Museu ajudaram a elaborar um extenso dossiê que questionou minuciosamente sua viabilidade, realização e o “desequilíbrio (…) da suposta ‘sinergia’ de interesses entre as partes envolvidas”, servindo como documento oficial dos vereadores responsáveis pela CPI de investigação do contrato e liminar. O bloqueio (Jul 03) da instalação de uma filial do Museu Guggenheim no Rio de Janeiro pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça, mantido pela liminar concedida pela Justiça fluminense para anular o contrato assinado entre a Prefeitura do Rio e a Fundação, permite-nos começar a esboçar as múltiplas dimensões implicadas neste processo. Recentemente, o Guggenheim encerrou duas unidades nos EUA, descartou projetos em Lower Manhattan, sua iniciativa de operar na internet, e diminuiu significativamente o número de funcionários e o orçamento anual, em sinal de franca retração de sua política de branding e franchise. A fundação já está atenta a outra filial na Ásia.