Ferramentas para múltiplos futuros
Revista Contorno / 5, MAM BA, 2014

para os meus tio totonho e ciro

Os homens sonharam com máquinas libertadoras. Mas, por definição, não existem máquinas de liberdade. Jamais a estrutura das coisas tem consequência para garantir a liberdade. Nada é funcionalmente libertador. A liberdade é o que se deve exercer, a garantia da liberdade é a liberdade.
Michel Foucault

Os arquitetos podem sonhar com “máquinas libertadoras”, mas elas não existem. A vida não tem garantias. A liberdade é exercício contínuo. A arquitetura e o urbanismo “misturam-se com múltiplas práticas e discursos, mas o espaço é o lugar privilegiado de compreensão de como o poder opera”, diz o filósofo Michel Foucault. Para ele, temos “arquiteturas máquinas”, compreendidas não como edifício mas como diagrama de um mecanismo de poder... eliminando qualquer esperança utópica! Entretanto, temos o seu conceito de heterotopias como contraespaços, “espaços outros”, utopias situadas, espaços-tempos que têm em comum serem lugares onde estou e não estou, ou onde sou outro (como o espelho, o cemitério, a colônia de férias etc.), que ritualizam desvios e os localizam [1]. Aproximando-se desses conceitos, tentamos compreender novas formas de uso social da arquitetura. Seja na Índia, Nigéria, Brasil ou Equador, encontramos experimentações contemporâneas significativas que propõem novas maneiras de ler e compreender as cidades e novos agenciamentos. São ferramentas arquitetônicas, visionárias, concretas e tangíveis em seus modus operandi, que compõem e constroem narrativas, protótipos e pontes:

narrativas

Situada na periferia de Delhi, Gurgaon é uma das cidades indianas que tem passado por transformações radicais na última década, similares a outras naquele país e no mundo, cuja economia cresceu exponencialmente. Não mais uma cidade de call centers como nos anos 2000, mas de centenas de grandes corporações nacionais e globais como Mercedes, Dell, Nokia, dentre outras. Com a promessa de prosperidade, a cidade tem atraído pessoas do país inteiro em busca de oportunidades. Marcada por meta-narrativas de infraestrutura deficiente (sem sistema infraestrutural de esgoto, hidráulico, eletricidade e lixo sólido), governança precária, ambiente degradante, planejamento especulativo, consumismo crescente, sociedade civil neoliberal etc., a urbanidade de Gurgaon também é cheia de histórias e micronarrativas que complicam essas meta-narrativas generalizantes e simplistas.

Gurgaon Glossaries (Glossários de Gurgaon, 2013) é uma investigação poético-política dos urbanistas indianos Prasad Shetty, Rupali Gupte, Prasad Khanolkar - CRIT Studio, que operam com novos e misturados métodos de ler e entender a cidade, rompendo as fronteiras disciplinares, com práticas semi-ficcionais que projetam novas ideias para a cidade. Para eles, “as meta-narrativas identificam problemas claros e criam um contexto para intervenções imediatas, que criam mais problemas. Por exemplo, em muitas cidades, a narrativa da infraestrutura pobre abriu caminho para grandes projetos de infraestrutura, que causam deslocamentos de pessoas, que causa a criação de políticas públicas de reabilitação, que causa danos culturais e ambientais, e assim vai” [2]. Eles ressaltam que seguimos presos a esses mecanismos e narrativas de “problema-intervenção-problema” (por exemplo a “falta de infraestrutura”), que não somente fecham as discussões conceitualmente, como trazem leituras simplistas e causam implicações perigosas que reificam ou pioram as condições existentes. Ao invés das obsessões tecnocráticas e da postura dos estudos urbanos de obter uma visão geral, lamentar e intervir, CRIT desvela as armadilhas das meta-narrativas e propõe estratégias conceituais – sem bordas, instável e incoerente - com micronarrativas semi-ficcionais que reinventam novos passados, assim como novos futuros.

Em constante processo de transformação, a cidade cria sempre novos termos e novas configurações. O glossário semi-ficcional é uma ferramenta potente que abre para múltiplas imaginações e narrativas de Gurgaon. Composto por termos - imagens e textos - em postais, publicações, espaço com mesas e cadeiras, produções e reflexões, oficinas e conversas, Gurgaon Glossaries oferece leituras e trocas mais sutis sobre experiências desta e de outras cidades. Os termos entrelaçam histórias e situações inusitadas ou familiares, e revelam que as cidades “acontecem para além dos planos, conspirações, políticas públicas, ativismos, conceitos, discursos e intervenções.” [3].

protótipo

O African Water City Project, desenvolvido desde 2010 pelo NLÉ, escritório de arquitetura, urbanismo e design (Lagos/Amsterdã) fundado pelo arquiteto Kunlé Adeyemi, objetiva investigar os desafios, realidades e oportunidades iminentes para adaptação das cidades africanas costeiras ao impacto das mudanças climáticas, em um processo de urbanização acelerada. Esse projeto de pesquisa em larga escala no continente africano surge concomitante a uma experiência concreta, pontual e multiplicável da Escola Flutuante de Makoko. Localizada na baía central de Lagos – maior cidade nigeriana, altamente densa com 16 milhões de habitantes ¬– a comunidade aquática de Makoko tem uma população estimada em cem mil pessoas, vivendo em casas de palafitas, cuja única infraestrutura existente é a água.

Em resposta às demandas e necessidades sociais e físicas da comunidade, para melhorar as condições precárias de uma escola com recorrentes problemas de enchente, a Escola Flutuante de Makoko é uma iniciativa, projeto e construção do NLÉ junto com a comunidade. A construção (setembro, 2012 à março, 2013) utilizou materiais disponíveis localmente e técnicas vernaculares, aplicou e fomentou o conhecimento e mão de obra de Makoko, inovando no desenvolvimento de uma solução/tipologia de edificação sofisticada, simples. A base flutuante de 10m x 10m foi estruturada em módulos com barris de plásticos vazios reutilizados, encontrados abundantemente em Lagos. Uma estrutura triangular com 10m de altura e três andares, feita com bambu e madeira local, tem seu centro de gravidade relativamente baixo provendo estabilidade e equilíbrio, mesmo em condições climáticas extremas. Inclui, ainda, sistemas de energia renovável, redução de lixo orgânico, tratamento de água e esgoto, com salas e estrutura para aulas e encontros comunitários.

Inicialmente financiado pelo próprio escritório, recebeu posteriormente apoio para pesquisa da fundação Heinrich Boll, e da UNDP/AAP para a construção. A ampla comunicação internacional do projeto na mídia aberta e especializada, em universidades, exposições culturais e simpósios, é estratégica também nas negociações politicas-legais locais e apoios transnacionais, e contribui para fomentar e contaminar novas experimentações na África e em países em desenvolvimento. Operando como um catalizador urbano, sociocultural, político e econômico, a Escola Flutuante de Makoko é um protótipo, ¬multiplicável em escalas e usos diversos, para cidades flutuantes mais sustentáveis e resilientes na costa africana e alhures.

pontes

O bairro de Cidade Tiradentes expressa as formas segregadoras de urbanização e produção do espaço urbano periférico na cidade de São Paulo. Realizados entre o Estado e as empreiteiras no final dos anos 1970, extensivos conjuntos habitacionais foram construídos distantes do acesso à infraestrutura da cidade, em um processo de despovoamento central e adensamento periférico. Em 30 anos, aproximadamente 330 mil pessoas passaram a morar em Cidade Tiradentes. A Convite da X Bienal de Arquitetura de São Paulo, para a plataforma Modos de Colaborar no Sesc Pompéia (2013) com curadoria de Guilherme Wisnik, Ana Luiza Nobre e minha [4], os coletivos de arquitetura Núcleo de Arquitetura e Cultura Construtiva – NACCO (São Paulo) e Al Borde (Quito, Equador) participaram de uma Residência por um mês em parceria com o Centro de Formação Cultural de Cidade Tiradentes (CFCCT) – equipamento cultural municipal inaugurado no final de 2012.

NACCO e Al Borde construíram conexões políticas e físicas entre o Centro Cultural e as comunidades lindeiras de Cachoeira das Graças, que ocupam uma das margens do córrego no bairro, problematizando os usos, apropriações e conceituações de espaço público, embaralhando as “etiquetas” de legal e ilegal, formal e informal. O processo incluiu vários atores, profissionais, poder público, comunidade e instituições privadas. Todas as etapas do processo aconteceram de forma colaborativa, visando à apropriação pela comunidade do objeto construído e o entendimento crítico do projeto arquitetônico. Como apontam os arquitetos do Al Borde, “O resultado desta colaboração (…) foi abrir as portas, conectar, dar a cara e as boas vindas ao que antes eram costas incômodas e que não se chegava a ver.” [5] Foram construídos um trajeto e uma ponte física que melhoraram pontualmente as condições da comunidade, mas que principalmente “desvalorizam a burocracia e valorizam as pessoas não pela condição jurídica, mas pela condição de existir.” Ações que questionam nesses contextos singulares e críticos qual o papel do arquiteto, da arquitetura, do centro cultural e da própria bienal de arquitetura.

E indagamos... Quais as ferramentas necessárias para “urbanidades outras”? Que narrativas, protótipos e pontes estamos construindo? Essas operações são transitivas? Podemos olhar pra elas e considerar que os sistemas propostos se transformarão de utopias, heterotopias, a outras topias e irão se consolidar? Quais futuros estamos inventando agora?

[1] Foucault, Michel O corpo utópico; As heterotopias; posfácio de Daniel Defert; [tradução Salma Tannus Muchail]. –São Paulo, n-1 Edições, 2013. Referência também ao meu mestrado “Diagrams and Diagrammatic Practices”, 1999 AA, Londres (não publicada)

[2] CRIT Studio, in Gurgaon Glossaries publicação – Introdução, in http://crit.in/crit-studio/gurgaon-glossaries/

[3] Ibidem

[4] Os três exemplos deste texto foram compartilhados e/ou desenvolvidos na plataforma Modos de Colaborar, parte da X Bienal de Arquitetura de São Paulo (12 de outubro - 01 de dezembro de 2013). Com o título Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar, a X Bienal articulou-se em rede, em vários lugares, enfatizando a experiência da cidade contemporânea, o espaço público como lugar de conflito, problematizando os modus operandi da arquitetura atualmente. Realizada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil/IABsp, com diversos parceiros e correalizadores. A plataforma Modos de Colaborar no Sesc Pompéia foi o laboratório desta X Bienal, com exposição, residências, intervenções, projetos arquitetônicos-urbanos, produção audiovisual, debates e oficinas. Coletivos de artistas e arquitetos, universidades e escolas, escritórios de design e arquitetura, compartilharam metodologias e experiências distintas de lugares como Mumbai, Moscou, Lagos, Quito, Belo Horizonte, Nova York, Rio de Janeiro, dentre outras. http://www.xbienaldearquitetura.org.br/

[5] Al Borde, in texto Introdução “1993”, sobre a experiência da Residência na X Bienal de Arquitetura de São Paulo (2013)