cidade: modos de fazer, modos de usar
2013

Guilherme Wisnik, Ligia Nobre e Ana Luiza Nobre

texto curatorial da X Bienal de Arquitetura de São Paulo
publicado na Monolito #17 e no website Vitruvius

As cidades estão hoje no centro da discussão internacional. O mundo se urbanizou de forma rápida e avassaladora, as cidades incharam, tornaram-se infinitamente mais complexas, e a ciência responsável por refletir sobre esses processos e regrar os caminhos de seu crescimento – o urbanismo – entrou em colapso.

Desacreditado o modelo ocidental para o desenvolvimento urbano após a crise financeira de 2008, cidades que cresceram em meio a crises sistêmicas fora do centro, como São Paulo, Rio de Janeiro, Lagos e Shenzhen, assumiram relevância em função dos problemas e das complexidades para os quais apontam. Se nos anos 1990 vivíamos uma espécie de fatalismo, segundo o qual as cidades pareciam não ter alternativa a não ser entregar-se inteiramente ao capital financeiro e globalizado, hoje as experiências bem-sucedidas (ainda que contraditórias) de cidades como Medellín, somadas à força contestatória dos diversos “occupy”, demonstram que os centros urbanos não podem ser apenas “máquinas de produzir riqueza”, segundo a definição de Harvey Molotch e John Logan.

Mas o próprio lugar do Brasil como país emergente também já está posto seriamente em dúvida e o otimismo acrítico frente ao futuro de nossas cidades diante dos megaeventos que se aproximam foi definitivamente rompido pela “voz das ruas”. Vivemos, certamente, um momento de quebra de paradigmas. E é sobretudo nos momentos de crise que temos a chance de mudar as coisas.

Hoje fica mais evidente que o espaço público não é o lugar apaziguado do encontro, e sim do conflito, do atrito. É na esfera pública que as diferenças, inerentes à vida nas cidades, são negociadas. Ocupar, tensionar, protestar, resistir são ações vitais nos centros urbanos do mundo hoje – como Nova York, Istambul e muitas cidades brasileiras –, mostrando que as práticas sociais ligadas ao uso do espaço público podem se contrapor de forma relevante à especulação imobiliária, ao consumismo exacerbado e à predominância dos interesses privados.

“Fazer” e “usar” a cidade parecia ser, até pouco tempo, um par dicotômico, que aludia, de um lado, às forças políticas e econômicas que constroem a cidade junto ao desenho do arquiteto e, de outro, ao uso dos espaços urbanos pela população. Hoje, no entanto, está claro que esses polos não se separam, pois usar é fazer e vice-versa, e não daremos conta da complexidade crescente das cidades sem arquitetarmos seus fazeres e usos de maneira dialógica.

São inúmeras as questões que hoje retornam a partir do arco de problemas levantados de forma experimental nos anos 1960 e 1970. Entre eles estão o papel ativo conferido ao uso das cidades e a emergência de práticas colaborativas que ensejam as redes horizontais de trabalho no mundo contemporâneo. O mottolefebvriano do “direito à cidade” está, de novo, na ordem do dia, pois o cidadão que usa o espaço urbano reivindica o direito de participar de sua construção. E esse direito inclui não apenas a satisfação de necessidades básicas, como transporte, habitação, saúde e educação, mas também a realização de desejos, sobretudo o desejo, múltiplo e difuso, de cidades melhores para fazer e usar na vida cotidiana. Isto é, cidades que sejam verdadeiramente lugares para a ação.


Hector Zamora, Brasil, Centro Cultural São Paulo, X Bienal

x bienal de arquitetura de são paulo: um breve panorama
2015

Ligia Nobre

texto publicado na revista recibo , Recife, Brasil
recibo 80 – um dossiê sobre arte brasileira
número 18 do ano 13, 2015

Revisitar a X Bienal de Arquitetura de São Paulo – Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar – dois anos após seu acontecimento é um inquietante desafio. Este relato foca no que permanece como diferenciação desta edição: o seu processo de realização [1], o agenciamento em rede e a problematização dos processos controversos contemporâneos de urbanização no Brasil e em várias partes do planeta. A elaboração institucional desta edição figurou-se como um enorme bordado, cuja complexidade é perceptível no seu avesso, como diz a codiretora geral Ana Helena Curti. Tratou-se de um emaranhado de articulações de gestões muito distintas das instituições parceiras e difíceis equações financeiras, limitações jurídicas e de infraestrutura. Tudo isso foi articulado junto a uma proposta curatorial pautada pela abrangência de demandas técnicas e sensíveis das cidades. Tal proposição se desenvolveu no encontro de diferentes agentes e práticas que se elaboram nos limites do que se reconhece como arquitetura. Para tanto, os enunciados modos de fazer e modos de usar as cidades ativaram e foram ativados por meio de pesquisas, projetos urbanos, arquitetônicos e artísticos em exposições, conversas, residências e outras ações de diversas escalas. Assim a X Bienal, em sua polifonia, operou como uma ferramenta de articulação, testemunha e participante do mundo contemporâneo, ressoando também as pautas eclodidas nas manifestações de junho de 2013, como mobilidade urbana e ocupação dos espaços públicos.

Tendo em vista uma perspectiva histórica, a primeira Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo ocorreu em 1973, durante a ditadura militar. Como parte da Fundação Bienal de São Paulo (que atuava nos moldes da Bienal de Veneza), realizada em conjunto com o Instituto de Arquitetos do Brasil – São Paulo (IABsp), sua segunda edição aconteceu em 1993, já no recente processo de abertura política democrática no país. A partir da nona edição, em 2011, a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo se desligou totalmente da Fundação Bienal, e a exposição foi organizada na OCA no Parque Ibirapuera. Em 2013, ao completar 40 anos, a décima edição sob responsabilidade do IABsp e com curadoria geral de Guilherme Wisnik e curadoria adjunta de Ana Luiza Nobre e Ligia Nobre, enfrentou muitos desafios, reverberando as urgências e emergências daquele espaço-tempo situado. Fruto de desejo e produção coletivos, esta X Bienal propôs novas configurações semânticas, territoriais e modus operandi, compondo agenciamentos com e na cidade e seus habitantes, em diversos lugares da metrópole paulistana, com participação de centenas de pessoas e dezenas de instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais, realizada entre 12 de outubro e 01 de dezembro de 2013.

Em 2013 houve também o acontecimento simultâneo de quatro plataformas internacionais de debate e disseminação da arquitetura e dos desafios urbanos contemporâneos: a X Bienal de Arquitetura de São Paulo, a 3a Bienal de Arquitetura e Urbanismo Shenzhen-Hong Kong/UABB, a 3a Trienal de Arquitetura de Lisboa e a 5a Trienal de Oslo. Com especificidades de cada cidade e proposta, todas as plataformas seguiram um formato similar de festival ao ocuparem a cidade, as ruas e as mídias sociais, articulando várias parcerias e colaborações para a viabilização das mesmas, visando o diálogo com públicos heterogêneos e não somente entre pares da profissão. Enquanto Shenzhen debateu sobre as transformações urbanas aceleradas em curso, Lisboa operou com práticas espaciais em um campo ampliado da arquitetura e Oslo focou na sustentabilidade, já São Paulo refletiu sobre os modos de fazer e usar a cidade, articulando questões de espaço público, infraestrutura/densidade e mobilidade.

Atentos à impossibilidade que “não daremos conta da complexidade crescente das cidades sem arquitetarmos seus fazeres e usos de maneira dialógica”, a proposta curatorial e as pesquisas coletivas foram elaborados em diálogo estreito com os colaboradores e cocuradores das mostras temáticas, da ‘chamada aberta’ de projetos, além das articulações locais e internacionais, reunindo um total de 180 participantes. Os Modos de Fazer e de Usar as Cidades ampliaram-se para outros ‘Modos de’, articulados especificamente aos espaços culturais: nos dois polos principais: Centro Cultural São Paulo (CCSP) – Modos de Agir e Sesc Pompeia – Modos de Colaborar; assim como em: Museu da Casa Brasileira – Modos de Habitar, MASP – Modos de Atravessar, Vão do MASP/Mostra Internacional de Cinema – Modos de Ver; projeto encontros estação metrô Paraíso – Modos de Encontrar, Praça Victor Civita – Modos de Fluir, Apartamento no Minhocão – Modos de Negociar, Centro Universitário Maria Antônia – USP – Modos de Ser Moderno. Junto à rede expandida, incluindo: Casa de Francisca, Casa do Povo, Cemitério do Araçá, Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes, Teatro Oficina, Galeria Choque Cultural, Instituto P.M. e Lina Bardi, IAB­–SP/Livraria Bookstore e um Parklet próximo da Av. Paulista. Como enunciado, a escolha dos locais que compôs a rede seguiu dois critérios básicos: a qualidade dos espaços na relação entre arquitetura e uso e sua acessibilidade, por meio da articulação ao sistema de transporte coletivo da cidade, incorporando a dimensão urbana na sua própria estrutura espacial em rede, enfatizando a experiência da cidade contemporânea e o espaço público como lugar de conflito.

Essas problematizações dos espaços públicos foram elaboradas por meio de projetos, debates e ações articulados como, por exemplo, nas exposições Segurança como Direito à Cidade (cocuradoria de Paula Miraglia), Ações: O que Você Pode Fazer Com a Cidade (curadoria de Giovanna Borasi e Mirko Zardini em colaboração com o Canadian Centre for Architecture–CCA), e particularmente em Espaço Público e Ativismo: com posteres, faixas, folders e barracas como ferramentas políticas dos recentes movimentos “Occupy” em várias cidades, assim como das manifestações nos centros urbanos brasileiros em 2013, com documentos do Movimento Passe Livre (MPL) – em um suporte estrutural desenhado pelo artista Vitor Cesar– junto a outras inserções, fotos, vídeos de urbanistas, artistas e ativistas, atualizando o mottolefebvriano do “direito à cidade”.

No diagrama de forças em jogo presentes nesta X Bienal, uma das pesquisas mais significativas, a partir de uma viagem exploratória (por arquitetos e artistas, com apoios da Escola da Cidade e do Instituto Moreira Salles), resultou na exposição Brasil: O “Espetáculo do Crescimento” (cocuradoria Paula Santoro) enfocando as grandes obras infraestruturais no Brasil durante o Governo Lula, em lugares-chaves desse processo de transformação nos estados de Pernambuco e Pará, de um ‘novo desenvolvimentismo’ que “reatualiza os velhos contrastes brasileiros na forma de um inesperado crescimento do espetáculo”. Mas, foi em Modos de Colaborar no Sesc Pompeia, em parceria com o Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes e o Teatro Oficina, que se configurou o laboratório desta X Bienal, com minha coordenação geral e curadoria, e coordenação de Ursula Troncoso. Residências, debates e ações em Cidade Tiradentes e no Bixiga, junto a outras iniciativas na Pompeia e na cidade, tiveram suas experiências e seus resultados compartilhados no Sesc Pompeia, ativados por conversas e oficinas, contribuindo para a construção de um legado além do tempo-espaço da X Bienal de Arquitetura de São Paulo:

Como síntese dos modos de fazer e usar, essas práticas colaborativas apontam para novos modos de agir – nos planos individual e coletivo – e propõem iniciativas concretas e tangíveis. Mostram desafios de articulações novas entre o pessoal e o institucional, leis, usos e forças que regem nossas cidades. Lina Bo Bardi, arquiteta responsável pelo projeto do Sesc Pompeia, insistia na importância de inventarmos o presente. Seja em São Paulo, Belo Horizonte, Mumbai, Gurgaon, Quito, Moscou, Lagos, Buenos Aires, seja em Nova York, as iniciativas aqui reunidas inventam presentes com distintas ferramentas e estratégias, incluindo trabalhos em rede, tecnologias, pedagogia, financiamento coletivo, ativismo urbano, representações poéticas, publicações, edifícios, hortas comunitárias, design de serviços públicos, inserções urbanas e ações políticas.


[1] Fragmentos citados dos textos curatoriais da X Bienal de Arquitetura de São Paulo, 2013 por Guilherme Wisnik, Ana Luiza Nobre e Ligia Nobre. Agradecimentos a Claudio Bueno e Carol Tonetti pela interlocução na elaboração deste breve texto.

[2] A convite do curador geral Guilherme Wisnik, me juntei como curadora adjunta em outubro de 2012. Na edição da revista Monolito #17 sobre a X Bienal de Arquitetura de São Paulo (nov.2013), compartilhamos os textos curatoriais e Wisnik assinalou os “Modos de Processar” as pessoas e instituições fundamentais para sua viabilização desta X Bienal.