Às mil maravilhas
2015

No âmbito do projeto "Descrito como real", de Vitor Cesar e Enrico Rocha
in III Mostra do Programa de Exposições 2015 - Centro Cultural São Paulo

Céu sempre azul, diferentes vistas aéreas, com mapas do Google Earth, perspectivas em zoom in e zoom out – imagens ‘meramente ilustrativas’ nos apresentam mundos idealizados. Vídeos-renderings promocionais tornaram-se o recurso padrão de propaganda e divulgação de empreendimentos imobiliários e de construção civil exercidos pelo poder público ou privado nas suas diversas escalas, de edifícios a operações urbanas. Vemos esse uso recorrente em campanhas de governos, como os exemplos recentes do “Porto Maravilha” [1] no Rio de Janeiro e os megaprojetos viários em Fortaleza, dentre outros.

Imagens e narrativas que vão se “renderizando” à nossa frente nas telas do celular ou do computador, assim como vão rendendo aos atores diretamente envolvidos o máximo de mais-valia. Na maioria, são projetos que se justificam por narrativas de infraestrutura, como o ideal das avenidas e automóveis, que promoveriam movimento ininterrupto e autônomo, mas que sabemos causam mais congestão e estão atrelados a poderosos e restritos monopólios das indústrias automobilísticas, empreiteiras e afins. Propostas muitas vezes questionáveis ou meramente eleitoreiras.

Simulações que seduzem o nosso olhar e nos ludibriam, à despeito dos conflitos de interesses e processos implicados (políticos, sociais, culturais, ecológicos, econômicos, financeiros, legais etc.) e consequências, corroborando para a falsa sensação de beleza, limpeza, rapidez e da construção instantânea – como num ‘passe de mágica’ (!) – das cidades. Esses renderings condensam e sinalizam o delta diferencial, i.e. as ambiguidades e a distância abismal entre o que dizem e o que fazem, entre os poderes público-privado e a população, entre os mundos desejados e os realizados, entre representação e representatividade.


[1] Vide o texto “O MAR de cima a baixo” por Sérgio Bruno Martins, 2013 in http://www.blogdoims.com.br/ims/o-mar-de-cima-a-baixo-por-sergio-bruno-martins

imagens do website de Vitor Cesar

‘Disposição subjacente’
2015-16

“Quem imagina a cidade?” é o questionamento aberto pelo projeto Descrito como Real de Vitor Cesar e Enrico Rocha com os colaboradores Carol Tonetti, Cidadão Instigado, Fernanda Porto, Fernando Stutz, Ligia Nobre e Renan Costa Lima. Todos os citadinos podemos imaginar a cidade e transformá-la com nossos desejos, usos e agires, porém alguns atores – a exemplo do Estado e do mercado imobiliário – têm ferramentas muito potentes e dominantes nesse jogo de forças desigual.

Em diferentes territórios do Brasil, foram propostos na última década por meio de parcerias público-privadas, megaprojetos de infraestrutura – entendida como rodovias e viadutos para automóveis, aeroportos, VLTs, estádios, conjuntos habitacionais periféricos e outros equipamentos – justificados por narrativas ‘desenvolvimentistas’. Muitos dos projetos infraestruturais são atravessados por ficções irracionais, obstrução de informações, concentração de poder autoritário e atividades não declaradas. Contrautopias totalmente alheias ao caos urbanístico, às contradições e segregações socioterritoriais vividas nas cidades brasileiras. Promessas de cidades rápidas, limpas, eficazes são “ofertadas” através de ferramentas de city marketing, particularmente os renderings –produzidos para circularem em telas de computadores, tvs, celulares e outros dispositivos. Representação visual preponderante, essas imagens computacionais de modelagem tridimensional apresentam um projeto como se já estivesse pronto, decidido, descrito como real. Renderizações espetaculares e aliciadoras de um futuro definido a priori (sem debates públicos) que configuram um visível que não faz ver.

No âmbito do cidadão, como podemos ampliar o entendimento de infraestrutura e do que está em jogo na imaginação e construção das cidades? A urbanista Keller Easterling tem investigado as tecnologias espaciais infraestruturais na paisagem política global no século XXI. Mais do que cabeamentos e encanamentos, viadutos ou rodovias, infraestrutura compreende as ondas entre satélites e aparelhos eletrônicos e os padrões (standards) que regulam os nossos espaços cotidianos ¬– com suas fórmulas repetidas como subúrbios, rodovias, resorts, shopping centers, dentre outros. Easterling investiga o espaço infraestrutural como um sistema operacional que formata a cidade e torna algumas coisas possíveis e outras impossíveis por parte dos atores público e privado implicados. Por isso é fundamental, como aponta a autora, distinguirmos entre o que estão dizendo e o que estão fazendo, isto é, as diferenças entre a intenção declarada (por exemplo, os discursos e imagens renderizados) e a disposição subjacente (as dinâmicas, interesses e forças em jogo).

Descrito como Real é uma operação que joga com a “ambiguidade das semelhanças e a instabilidade das dessemelhanças” entre imagens e linguagens das artes visuais, música pop e do city marketing na esfera pública. No vídeo realizado para o projeto, fragmentos de imagens-vídeos renderizadas produzidas pelo poder público para a divulgação de megaprojetos futuros para a capital cearense, e outras do planeta terra e do cosmos, são apropriadas e contorcidas, repetidas, pixeladas, explodidas, saturadas, tornadas ‘defeituosas’, se aproximando e se distanciando da música que canta Fortaleza como ficção científica da banda Cidadão Instigado.

Diversos elementos compõem a experiência espacial do projeto, que prescinde de paredes. Uma estrutura cônica de arestas direciona o nosso olhar e ouvidos para o monitor com o vídeo em looping com o som da música Ficção Científica. Os fragmentos de renderings dos futuros projetos se materializam virtualmente muito mais rápido que a velocidade do letreiro de ponto ônibus. Letreiro suspenso, onde lemos e captamos fragmentos do texto crítico em diálogo com o projeto, próximo a um tablado baixo que nos convida a sentar ou deitar, brincar e dançar. Um banco comprido articulado a um suporte vertical com dois cartazes e um grande painel com o título complementam e comunicam a linguagem gráfica e imagética do projeto. As experiências de Descrito como Real ecoam a reflexão do filósofo Jacques Rancière em Destino das Imagens, em que “a arte da instalação faz agir uma natureza metamórfica, instável, das imagens. Estas circulam entre o mundo da arte e da imageria. São interrompidas, fragmentadas, recompostas por uma poética do chiste que busca instaurar entre esses elementos instáveis novas diferenças de potencial” .

As relações entre o título do projeto, o dispositivo espacial (e nas redes sociais), o vídeo e a música, os eventos e as ativações, nos instigam como espectadores-cidadãos a questionarmos o que nos é automaticamente e “definitivamente” ofertado, e a imaginarmos e ativarmos cidades outras daquela dominante do city marketing. Descrito como Real nos faz ver as diferenças entre a ‘intenção declarada’ e a ‘disposição subjacente’ de quem imagina o quê, com quem e como, para a cidade de Fortaleza, entre muitas outras na contemporaneidade.


[1] Easterling, Keller. Extrastatecraft: The Power of Infrastructure Space. New York: Verso, 2014.
[2] Rancière, Jacques. O Destino das Imagens. Tradução Monica Costa Neto. Org. Tadeu Capistrano. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. p.34
[3] Rancière. Ibidem. p.35 : “Trata-se, por um lado, de transformar as produções finalizadas, inteligentes, da imageria em imagens opacas, estúpidas, que interrompem o fluxo mediático. Por outro lado, de despertar os objetos úteis adormecidos ou as imagens indiferentes da circulação midiática para suscitar o poder dos vestígios de história comum que eles comportam.”