a cidade e seus espaços: múltiplas mediações
2014

originalmente publicado no website da 31a Bienal de São Paulo



Mais do que um conceito, a cidade é um campo de práticas. Marcel Roncayolo

Tornam-se mediadores, ou seja atores dotados da capacidade de traduzir aquilo que eles transportam, de redefini-lo, desdobrá-lo, e também traí-lo. Os servos tornaram-se cidadãos livres. Bruno Latour, in Jamais Fomos Modernos

Os imaginários, as mediações, os conflitos, as trajetórias urbanas e biográficas, os diagramas de forças sociais, econômicas e políticas desenham e são desenhados pelos espaços e artefatos da cidade. Em nossos percursos cotidianos e de vida atravessamos espaços heterogêneos, transitamos entre códigos diferentes e fronteiras diversas, com circuitos, conexões e bloqueios que (trans/in)formam nossas formas de vida. O encontro A cidade e seus espaços da 31a Bienal realizado no Sesc Pompeia em São Paulo, no sábado 22 de março, visava discutir “questões vinculadas às diversas formas de ativação da cidade, ao uso da cidade como matéria prima, como espaço de jogo, de tensão e de redefinição constante dos seus próprios usos”. Reunindo aproximadamente quarenta convidados –incluindo artistas, arte-educadores, lideranças de movimentos sociais, urbanistas, professores, jornalistas– e os curadores Charles Esche, Nuria Enguita, Galit Eilat, Pablo Lafuente e Benjamin Seroussi, organicamente arranjados em roda, entremearam-se vozes e práticas de circuitos distintos da cidade.

Em um conversa dissonante e um tanto errática, revelou-se uma multiplicidade de mediações e mediadores que, em rede, provocam e potencializam ações e ao mesmo tempo se modificam com ela, nos seus usos da cidade. Como ressalta o sociólogo Bruno Latour, "ação não é o que as pessoas fazem, mas sim o fait-faire, o faz-fazer, realizado juntamente com outros num evento, com as oportunidades específicas fornecidas pelas circunstâncias".[1] O feixe de mediações que predominou neste encontro sobre a cidade e seus espaços, não por acaso, foi referente às ações educativas de arte e cultura, principalmente em favelas, nas periferias, em ocupações ou em canteiro de obra de construção civil. Artistas, arte-educadores e lideranças de movimentos sociais apresentaram suas diferentes experiências em situações específicas.

Dentre as várias falas na interface entre arte e educação, Marília, gestora de um centro comunitário cultural em Heliópolis, introduziu sua experiência e questões sobre a importância de urbanizar com arte, do protagonismo comunitário, a cidade como educadora, e como os processos de arte e educação precisam estar mais integrados à cidade, sobre as contradições nos processos políticos e campos de negociação. Por outro lado, Liderança do MSTS, Robson nasceu e cresceu em Heliópolis mas defendeu a moradia no Centro, enfatizando que a “luta é pela moradia, mas também ter educação, ter conhecimento da cultura e da informação” e “através da arte trazer conhecimento e educar as pessoas”. O MSTS - Movimento Sem Teto do Sacomã, dentre outros movimentos de moradia atuam pelo direito à habitação social com acesso à infraestrutura pública para a população de baixa renda, ao ocuparem estrategicamente edifícios vazios e ociosos no centro histórico, operando entre processos de especulação imobiliária (e valores de uso e de troca da terra), articulações políticas e clivagens sociais agudas. Ele compartilhou as várias atividades culturais com artistas locais e internacionais na ocupação Cine Marrocos, que embora contígua fisicamente ao Teatro Municipal e à semi-inaugurada Praça das Artes, estão ainda muito distantes como acessos simbólico-sociopolítico. Aproxima-se mais das recentes ocupações de uso cultural [2], em ressonância com outras iniciativas de práticas colaborativas entre coletivos de arte e movimentos sociais [3]. São mediações que buscam ampliar o alcance de ferramentas poéticas-afetivas dos moradores e artistas; e, ao mesmo tempo, aumentar a presença pública contra a criminalização dos movimentos de moradia e para a conquista dos direitos.

São muitos os exemplos de mediações de arte e educação (com ferramentas, modus operandi e interesses diversos) em expansão nos últimos vinte anos: nas periferias, em meio a ONGs e centros comunitários e seus princípios gestionários, e mudanças de papéis ou ausência do Estado; assim como nas instituições culturais e museus marcados pelo discurso de responsabilidade social e desafios de mediação com os públicos; concomitante às transformações conceituais das práticas artísticas e mudanças sociais em curso no Brasil e no mundo. Neste contexto, a Fundação Bienal me parece ter um papel chave como instituição cultural mediadora em âmbito local, nacional e internacional. Localizada no Parque Ibirapuera, uma das poucas áreas verdes da metrópole, inaugurado sessenta anos atrás enaltecendo o ‘desenvolvimentismo’ do país, no qual a Bienal fez parte do projeto de inserção internacional do Brasil e de São Paulo. O pavilhão projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer – uma imensa caixa de vidro com sua grelha de pilotis, lajes e esquadrias contínuas e rampas contorcionistas-ilusionistas – é ativado e usado inteiramente somente durante os grandes eventos como exposições, feiras e Bienais. Com limitado acesso via transporte coletivo, algumas edições anteriores da Bienal buscaram ativar outros espaços da cidade. Mas, é através do programa contínuo do Educativo Bienal nos últimos anos que se articulam mediações em rede na cidade, como indicado na fala da coordenadora geral do Educativo Bienal sobre o diálogo da instituição com aproximadamente setenta organizações não-governamentais e associações.

São Paulo é marcada historicamente por segregações, assimetrias e desigualdades em seus espaços e territórios, com padrões muito distintos de acesso aos serviços, infraestruturas e recursos. O mundo urbano está em mutação acelerada, e como aponta a socióloga Vera Telles as clivagens sociais e espaciais se “embaralharam”. “Inteiramente ao revés das figurações – construídas pelas políticas ditas de inserção social – de uma pobreza encapsulada em suas “comunidades” de referência e nas carências da vida”, Telles contrapõe e identifica a multiplicação pelas periferias afora dos programas sociais, mas em “um mundo social que vaza ou transborda os dispositivos gestionários e é atravessado por uma expansiva trama de ilegalismos [novos e velhos] que se entrelaçam nas práticas urbanas e redes sociais” [4]. Para Telles, “transitar em meios sociais heterogêneos, cavar oportunidades, construir redes de sociabilidade e espaços de iniciativa - são estratégias de sobrevivência e participação requeridas dos pobres, como dos ricos. (...) Não se trata de universos paralelos, muito menos de oposição entre o formal e informal, legal e ilegal. Na verdade, é nas suas dobras que se circunscrevem jogos de poder, relações de força e campos de disputa,” [5] redesenhando os mundos urbanos. As questões sobre as mediações de arte (e de educação) na cidade são complexas, e tem sido amplamente debatidas nesta jornada da 31a Bienal, pelo Educativo Bienal, dentre outros pensadores, educadores, artistas... O que me parece interessante aqui é encontrarmos pistas ou outros prismas possíveis sobre as múltiplas mediações e mediadores que potencializam e/ou bloqueiam ativações na cidade, seus espaços e atuais dinâmicas.

Acompanhamos as indagações feitas pelos curadores: a percepção da ausência de esfera pública (lack of publicness) em São Paulo; os problemas de conexões na cidade entre regiões e periferias e que não passem pelo Parque Ibirapuera; assim como as dificuldades de conexões entre as cidades brasileiras; à respeito das conexões entre iniciativas populares e instituições, se não acontece, porquê? E se poderia ser diferente? E se esses programas sociais não estariam fazendo o papel que seria da prefeitura e não deles? Diferentes ecos dos participantes ressaltaram que “o poder público não dá conta, a apropriação é nossa, do cidadão”, que “os intercâmbios estão em outros recursos e que temos que repensar as questões hierárquicas”, ressaltando que tem o grafite e muito a aprender com eles, e perguntando “como pensar processos de emancipação a partir de outras perspectivas, trazer outras vozes, outros sujeitos?” São todos apontamentos que sinalizam para a exaustão dos mecanismos políticos existentes, das vias institucionais, e questionam as relações e os papéis dos atores sociais, das plataformas e instituições. Em ressonância com as mobilizações de rua (os protestos de junho de 2013 e posteriores, que marcam uma inflexão política e social no país de “cidadania insurgente”); as emergentes práticas colaborativas de arquitetos, artistas, ativistas que reocupam e (re)significam os espaços das cidades com novos usos, dentre outras ações que marcam a urgência de construirmos outros parâmetros, mediações e agenciamentos da imaginação pública, coletiva, comum na invenção de seus presentes e futuros.

São muitos os desafios da 31 Bienal como plataforma (situada) neste momento de transformações intensas, com potência para ativar múltiplas mediações nas dobras da cidade e das dinâmicas sociais. E seguimos com as perguntas abertas pelos curadores no final do encontro: “O que a arte pode fazer em relação à cidade? Como a Bienal pode ser um mecanismo para a cidade por dois ou três meses? A Bienal compreendida como um dispositivo que permita a transformação, que crie possibilidades, em que imaginar o mundo de outras maneiras é o que a arte [pode e] tem que criar”.

[1] LATOUR, Bruno. in A Caixa de Pandora, 2001, p. 323.

[2] O ocuparte em diversas cidades; a ocupação por artistas na Rua do Ouvidor, 63 no centro histórico de SP; Movimento de Ocupação de Espaços Ociosos com Ateliê Compartilhado Casa Amarela, dentre outras iniciativas.

[3] Como por exemplo o processo (contraditório) do ACMSTC na ocupação Prestes Maia (SP) entre 2003 e 2006. Vide texto de Gavin Adams (2007) Políticas de Ocupação, in Revista Cultura e Pensamento #1, MinC, maio-junho 2007 p. 20-27.

[4] TELLES, Vera da Silva e HIRATA, Daniel in “Cidade e práticas urbanas: nas fronteiras incertas entre o ilegal, o informal e o ilícito” in São Paulo: Novos Percursos e Atores, org. L. Kowarick e E. Marques, Ed. 34, São Paulo, 2011.

[5] TELLES, Vera da Silva in A cidade nas fronteiras do legal e ilegal, Ed. Argumentum, Belo Horizonte, 2010, p. 7 e p. 30.