As cidades e suas margens
Seminário Internacional de Arte Pública
Coordenação e Moderação do Seminário Ligia Nobre / Curadoria Projeto Margem Guilherme Wisnik
Itau Cultural, São Paulo
16 - 19 Setembro, 2009

O Seminário Internacional de Arte Pública As cidades e suas margens convida múltiplas vozes e posturas - artistas, curadores, arquitetos, urbanistas, ativistas, antropólogos e historiadores - para dialogar e debater sobre potenciais agenciamentos entre arte contemporânea e escala urbana no Brasil.

Este encontro desdobra-se em reflexões sobre o papel central dos rios e suas margens na conformação do território e das cidades brasileiras, e assinala para as reconfigurações urbanas radicais em curso envolvendo novos atores e forças locais e trans-nacionais. Projetos e práticas de arte pública realizados a partir dos anos noventa em distintos lugares do continente americano contribuem para uma revisão destas experiências, preceitos, estratégias e efeitos respectivos, e somam para o debate atual sobre os vários entendimentos de público, “espaço público” e “arte pública”.

Vivemos um momento de inflexão histórica singular no Brasil, de impasses e transformações epistemológicas intensas, de experimentação, invenção. E como nos relembra o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro: “O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno; então não adianta ficar pensando só no Brasil”. Que o espírito de conversa presente no desenvolvimento deste seminário e com os convidados participantes, se intensifique ao longo dos quatro dias deste primeiro evento público do projeto Margem, e contribua para uma continuidade destas reflexões e ações através dos projetos artísticos convidados e das cidades e suas margens, de futuros debates e publicações.
Programação

16 Set.
No Brasil: os rios e a geografia “à margem da história”?

Introdução do projeto: Guilherme Wisnik

Renato Sztutman (antropólogo, USP, São Paulo)
Francisco Foot Hardman (historiador, Unicamp, São Paulo)
Paulo Mendes da Rocha (arquiteto, São Paulo)

17 Set.
exibição dos filmes Ilha das Flores (Jorge Furtado) e Amazonas, Amazonas (Glauber Rocha) e debate Práticas de arte pública site–specific
Moderador convidado: Jorge Menna Barreto (artista, São Paulo)

Guilherme Wisnik (arquiteto e curador do projeto)
Ana Maria Tavares (artista, São Paulo)
Nuno Ramos (artista, São Paulo)
Hector Zamora (artista, São Paulo)

18 Set.
exibição do filme Expedição Humboldt (Victor Leonard) e debate Projetos e práticas de arte pública: retrospectiva e balanço

Nelson Brissac Peixoto (diretor projeto Arte/Cidade, São Paulo)
Osvaldo Sanchez (diretor artístico projeto inSite 05, EUA/México)
Gisella Hiche / Experiência Imersiva Ambiental, EIA (artista, São Paulo)

19 Set.
Reconfigurações territoriais recentes: novos atores e forças em jogo

Mariana Fix (urbanista, São Paulo)
Juliano Pamplona Ximenes Ponte (urbanista, Belém)
Adrián Gorelik (urbanista e historiador, Buenos Aires)

Introdução Geral

O Seminário Internacional As cidades e suas margens, no contexto do projeto Margem de Arte Pública Itaú Cultural com curadoria de Guilherme Wisnik, enfoca o Brasil interior – tomado metaforicamente como um anti–litoral – e a especificidade da formação das cidades brasileiras através dos rios e suas margens, e nos processos de transformação recente nas orlas fluviais brasileiras, visando articular essa especificidade urbana com a falta de uma maior tradição de arte pública no Brasil.

Vistos na escala do país – e, mais ainda, do continente – os rios e suas bacias compõem um elo territorial que integra as cidades em um sistema unitário: uma rede feita de pontos estáveis e de fluxos. As orlas fluviais das grandes cidades brasileiras – capitais ou centros regionais – são lugares ambíguos. Por um lado, se consolidaram historicamente como os ‘fundos de quintal’ dessas mesmas cidades, trazendo as marcas do sucateamento do transporte fluvial no continente, e da erosão da sociabilidade que o acompanhava. Por outro lado, no entanto, há evidentes sinais de uma recente revisão desse legado histórico, visível na disputa entre setores públicos e privados por esses espaços abandonados ou residuais. Desse modo, aparecem algumas questões: deixarão os rios urbanos e suas orlas de serem espaços marginais para recuperar a centralidade que desempenharam um dia, porém em novo contexto? Em que termos essa revisão crítica se dará? Superando o legado colonial, ou aprofundando o seu caráter predatório e exclusivista? Seja qual for a direção tomada, está claro que os rios e suas margens são elementos centrais no conflituoso processo de reconfiguração urbana que se dará, nas cidades brasileiras, em um futuro próximo.

Ganhando o espaço público e urbano, a arte contemporânea tem conquistado progressivamente um território antes restrito à arquitetura e ao urbanismo – tanto em temática quanto em escala –, misturando–se a eles. No entanto, por manter–se livre de qualquer compromisso restaurador ou edificante, ela pode assumir, ao contrário, um ângulo essencialmente crítico e negativo, de modo a tencionar os processos urbanos em causa. Particularmente, esteseminário foca no levantamento e problematização do conceito e metodologia de site–specificity no Brasil e no debate internacional; e na dialética, a partir dos rios, entre o site?specific e os fluxos. Projetos e práticas realizados nos anos noventa e atuais, e contribuições dos três primeiros artistas convidados ? Ana Maria Tavares, Hector Zamora e Nuno Ramos?, contribuem para uma revisão de experiências das relações entre arte contemporânea e escala urbana.

Organizado paralelamente à exposição introdutória de Margem, este encontro – envolvendo artistas, críticos, curadores, antropólogos, historiadores, jornalistas, urbanistas e arquitetos – visa contribuir para o debate sobre arte contemporânea e escala urbana no Brasil, e para os desdobramentos deste projeto nas doze cidades escolhidas.