Desencaixotando Brasília
Márcia Ferran e Ligia Nobre
Projeto de pesquisa artística / Artistic research project, 2012
Workshop Capacete - 29a Bienal de São Paulo, 23-24.10.2010

Este projeto de pesquisa artística foca no cemitério de Brasília, última função prevista no plano-piloto por Lucio Costa em 1956. Nem cronológico nem linear, parece ser em espiral que opera a evolução de Brasília. E é em espiral que se desdobra o fio-condutor crítico e poético que lançamos, ligando o momento dos 50 anos de Brasília (1960-2010) a uma obra performática realizada em 1969 pelo artista Cildo Meirelles, que predizia a força panóptica sobre a cidade e inspira o nome do trabalho “Caixas de Brasília”.

Elementos quase mundanos da paisagem - o cemitério e as funerárias -, ao mesmo tempo renegados e indissociáveis de toda urbe, revelam uma economia, planejamento e política da morte. O cemitério-jardim “Campo da Esperança” é acessível por carro, coerente com o modelo automobilístico da cidade. Seu desenho em espiral – apreensível somente de um ponto de vista aéreo – condiciona o caminhar e os rituais. A proposta de vídeo-instalação (não-realizada) desenvolve-se em circulares filmadas e com leituras em voice-over.

Escapando das visões triunfalistas ou derrotistas acerca da cidade planejada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer, revemos criticamente o teor utópico e investigamos o espaço urbano da capital a partir do estranhamento com a presença de várias funerárias na asa sul da cidade. A presença de funerárias em plena quadra residencial na área valorizada da asa sul parece inadequada, porém atende a presença do cemitério. O cemitério por sua vez, não é um cemitério ordinário, mas um cemitério-jardim em formato de espiral, que atende ao mesmo desejo formalista originário do modernismo tardio que representa Brasília.

Em pesquisa em jornais e entrevistas, revelou-se um processo de especulação, atravessado por suspeitas de corrupção típicas da política da capital. Um tipo peculiar de especulação, não mais a imobiliária, como em qualquer cidade, mas a especulação do solo funerário, no único cemitério permitido na nobre área do Plano Piloto.

Mais do que um elemento gratuito, a forma em espiral foi o elemento chave indicando uma repetição no espaço-tempo de mecanismos típicos da cidade. Como elementos do repertório formal e urbano, o caso do cemitério remete tanto ao Museu Infinito de Le Corbusier, o Spiral Jetty de R. Smithson, quanto a uma crença no poder espiritual do movimento circular. Na escala vivenciada em pleno cemitério, no entanto, o que está em jogo são as tendências panópticas já anunciadas por Cildo Meirelles, artista que morou na cidade no inicio de sua carreira. O panótico traz também questões de especulação fundiária, que perpassam as cidades e a arte contemporâneas na economia sobre-financeirizadas.

Esta proposta foi inicialmente desenvolvida como um workshop a convite do Capacete Entretenimentos no âmbito da 29a Bienal de São Paulo, e posteriormente desenvolvida como um projeto de pesquisa artística incluindo entrevistas, exerctos de filmes, fotos e um projeto (não realizado) de video-instalação.

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Material do Workshop


Capacete Entretenimentos / 29a Bienal de São Paulo :Oficina Máquina de Responder





Unboxing Brasília

This artistic research project examines the garden-cemetery of Brasilia, the last function envisioned in the ‘pilot plan’ by Lucio Costa in 1956.Neither chronologic, nor linear, it seems that Brasilia’s development operates spirally. And, it is in spiral that the critic and poetic thread thrown by Marcia Ferran and Ligia Nobre unravels. It links the fifty years of Brasília (1960-2010) to the artwork realized in 1969 by Brazilian artist Cildo Meireles, which predicted the panoptic forces over the city, called Caixas de Brasília (Boxes of Brasília), which inspires the name of this project.

Almost mundane elements in the landscape, the cemetery and the funeral homes –denied but inseparable of every urbe– unfold an economy, planning and politics of death. Reached by car, following the stratified automobile city model, its spiral drawing – apprehensible only from an aerial view – conducts the movements and rituals. The video nstallation (not-realized) unfolds in circular shooting-editing and a voice over.

This video installation examines the cemetery of Brasilia, the last function envisioned in the ‘pilot plan’ by Lucio Costa in 1956. Escaping from triumphal or defeating visions around the planned city by Lucio Costa and Oscar Niemeyer, Marcia Ferran and Ligia Nobre review critically its utopic content, by inquiring the Capital’s urban space out of the strangeness of the proximity of many funeral homes in the residential south axis. The strong presence of funeral homes in the high-valued Asa Sul residential super-squares seems incompatible. However, they attend the presence of the cemetery, which is not an ordinary one. The garden-cemetery has a spiral form, following the original formalist desire of the late modernism that Brasilia represents.

By researching local newspapers and interviews, a speculation process was revealed, traversed by suspicion of typical corruption within politics in the Federal Capital: a peculiar kind of speculation, not the real state one like in any other city, but the funerary land speculation, in the solely cemetery - called “Field of Hope” - allowed in the noble area of the ‘pilot plan’.

More than a gratuitous element, the spiral form is the key element indicating the repetition in space-time of the typical mechanisms of this city. As an element of formal and urban repertoire, the case of the cemetery refers to the Infinite Museum by Le Corbusier, to the Spiral Jetty by R. Smithson, as well as to a belief in the spiritual power of the spiral movement. In the living scale in the mid of the cemetery, however, what is at play is the panoptic force already revealed by Cildo Meireles, artist who lived in the Brasilia in his early career. The panopticon also comes with issues of land speculation, that pervades our cities and contemporary art in a global financization of the economy, and the specific arrangements that take place in Brasilia.

Brazil has undergone accelerating changes in its society, state and economy unimaginable a few years ago, with new and old forces at play. Unboxing Brasilia video installation reveals this peculiar element – the cemetery and the surrounding economy- present, but not visible in our everyday life and in the urban space. It hints the spiral character of its form and dynamics, as synthesis of the circular movements and rituals, repetions and deviations, the time-space multiple dimensions, the real state speculation and the land speculation in the cemetery, in this single World Heritage territory locked up between growth and preservation, revealing its impasses.