Usando a Cidade
2015

para Harper'z Bazaar Art, Abril 2015 : Cidade

Mobilizações sociais e culturais atuam nos modos de fazer e usar os espaços públicos

A dimensão de ‘bem comum’ tem reemergido em debates, discursos e ações como maneira de responder aos desafios da crescente e predominante restrição, privatização e controle dos espaços urbanos, seja em São Paulo, Nova York, Belo Horizonte, Istambul ou Londres. O mundo urbano está em contínua mutação. Hoje, está claro que usar a cidade é fazer a cidade e vice-versa. Não daremos conta da complexidade crescente das cidades sem articularmos seus fazeres e usos de maneira dialógica, mostrando que as práticas sociais e culturais ligadas ao uso do espaço público podem se contrapor de forma relevante à predominância dos interesses privados. Usar e Fazer as cidades implicam em praticar, realizar, criar, produzir.

Assim como em várias cidades do mundo, na metrópole paulistana são inúmeras as iniciativas de intervenção direta e ativa promovidas por grupos de pessoas ou individualmente, que se reúnem de maneira colaborativa para criar hortas urbanas, ocupações permanentes, plantio de árvores, ações de lazer diversas, mobilizações pela defesa de parques etc. Movimentos esses que podem se organizar potencializados pela comunicação em redes sociais, e que tem o poder de cooperação social e a busca por compreender e construir espaços urbanos como ‘bem comum’.

Em São Paulo, no Largo da Batata em Pinheiros, Zona Oeste, a iniciativa A Batata Precisa de Você é um exemplo de organização social que assume práticas de engajamento comunitário que sugerem novos modos de fazer e usar a cidade. Por meio de um laboratório de mobiliário urbano, arborização e atuação cultural permanente, o movimento tem provocado a discussão à respeito dos possíveis usos e infraestrutura desejável desta potencial praça, cuja remodelação urbana empreendida pelo poder público desconsiderou e acabou gerando um espaço árido e incompleto por anos.

A ação internacional Park(ing) Day, iniciada nos anos 2000, propõe que as pessoas ocupem por um dia por ano vagas de carros nas ruas com intervenções diversas, como a bem humorada ação com carpete verde e cadeiras de praia numa rua nas adjacências da Av. Paulista, convidando a todos os moradores à reflexão do que queremos fazer das nossas ruas. De certo modo, esse processo se institucionalizou com os Parklets, que emergiram na cidade em 2013. Vagas de carros da “Zona Azul” são convertidas em espaços multiuso para pedestres, como extensões das calçadas ou miniparques, patrocinados por responsáveis pela implantação, manutenção e ativação dos mesmos. A despeito de suas contradições e diretrizes que ainda podem ser melhoradas, é um exemplo de ação de ONGs e organizações privadas na tentativa de (re)invenção dos espaços públicos na cidade.

Encontramos as mais variadas formas de expressão poética e política, artística e ativista, nas ruas, que pretendem multiplicar os modos como os moradores percebem e atuam na cidade. Ações sutis e simples, como um estêncil ou lambe-lambe, podem ser também tão ou mais contundentes e transformadoras na construção de ‘espaços urbanos comuns’. A exemplo dos cartazes coloridos com frases-projetos para o espaço público da Campanha Não-Eleitoral do grupo Piseagrama, colados nos muros de Belo Horizonte e de outras cidades brasileiras, e do estêncil Vista Sua Existência do coletivo artístico Usina da Alegria Planetária nas ruas de São Paulo, provocando o indivíduo e sua capacidade de transformar a si mesmo e seu ambiente, singular e coletivamente.

Fica em aberto como conseguiremos continuar e persistir com essas mobilizações sociais e culturais – e como articular ou não com outros agentes, como poder público e iniciativa privada –, multiplicando-as para que elas não sejam eventos esporádicos nos modos de fazer e usar os espaços públicos como ‘bem comum’.

 
 
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