behind the green door
Oslo Architecture Triennale 2013

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OAT 2013

Em 2013 tivemos a sinergia singular de quatro plataformas internacionais importantes para o debate e disseminação da arquitetura e desafios urbanos contemporâneos: a X Bienal de Arquitetura de São Paulo (12 out- 01 dez 2013), a 3a Bienal de Arquitetura e Urbanismo Shenzhen-Hong Kong - UABB (06 dez 2013 – fev 2014), a 3a Trienal de Arquitetura de Lisboa (set – dez 2013), e a 5a Trienal de Oslo (19 set – 01 dez 2013).

Com especificidades de cada cidade e proposta, todas as plataformas seguem um formato similar de festival ao ocuparem a cidade, as ruas e mídias sociais, articulando várias parcerias e colaborações para a viabilização das mesmas. Elaboradas em média por um período de um ano, ativam diversos formatos como exposições, percursos, publicações, filmes, seminários e oficinas por dois a três meses publicamente, agregando pessoas e abrindo para novas vozes e ações. Enquanto São Paulo debateu a “Cidade: Modos de Fazer, Modos de Usar” como temática ampla, articulando questões de espaço público e mobilidade urbana, Shenzhen articulou as transformações urbanas aceleradas em curso, e Lisboa operou com práticas espaciais em um campo ampliado da arquitetura, a Trienal de Oslo focou em uma única temática, onipresente e ambígua: a sustentabilidade.

A Trienal de Arquitetura de Oslo (OAT) é o principal evento de arquitetura dos países nórdicos, uma plataforma que reúne seis instituições fundadoras – Associação Nacional de Arquitetos Noruegueses, Escola de Arquitetura e Design de Oslo, Fundação de Design e Arquitetura da Noruega, Associação de Arquitetos de Oslo, Museu Nacional - Arquitetura e Oslo Teknopol – e contou com a participação dos centros de arquitetura dos outros países da região nórdica para a realização da Trienal. Em 2012 a OAT abriu um processo de chamada aberta para curadoria, cuja proposta escolhida pelo júri foi o conceito do ROTOR + Criticat, da Bélgica: Sustentabilidade.

Fundado em 2005 em Bruxelas, ROTOR é um coletivo com interesse comum nos fluxos materiais na indústria e construção. Eles realizam projetos de arquitetura e de design e desenvolvem propostas críticas e teóricas, responsáveis, por exemplo, pela curadoria do Pavilhão Belga na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2012, assim como da exposição OMA/Progress (2011-12) no Barbican em Londres sobre os processos de trabalho do OMA-AMO (Holanda). Esta 5a Trienal de Arquitetura de Oslo investigou como o conceito de sustentabilidade opera, através de várias lentes (perspectivas históricas e outras), provocando e debatendo esse conceito em arquitetura e desenvolvimento urbano, e como ele atua como agente poderoso atualmente no mundo.

A proposta dos curadores Marteen Gielen e Lionel Devlieger – ROTOR para a principal exposição da OAT 2013 foi pesquisar e mostrar a diversidade de projetos e objetos que se autoproclamam sustentáveis na arquitetura contemporânea. Behind the green door - “architecture and the desire for sustainability” no DogA - Centro de Arquitetura e Design Norueguês, reuniu mais de 600 artefatos – seja maquete, foto, vídeo, publicação, peças da indústria da construção, projetos de planejamento urbano, arquitetura, engenharia, design gráfico e outras disciplinas – acompanhados de legendas e textos que o contextualizam, expondo suas representações e argumentos. A exposição operou como uma coleção de artefatos – a partir de uma seleção assumidamente intuitiva e diversa ¬– como um arquivo potente do contemporâneo ao reunir múltiplas narrativas e mapear a noção de “sustentabilidade” atualmente. Cunhada três décadas atrás no conhecido Relatório Brundtland – Our Common Future pela ONU- World Comission on Environment and Development, desde então, a Sustentabilidade tem sido usada como estratégia, argumento, ativismo, ferramenta de medida e como “marca” de maneira aleatória, dominando muitos discursos públicos e privados.

Na exposição, os artefatos são organizados cronologicamente em uma mesa longitudinal e por filtros e histórias – com hipóteses epecíficas – em mesas espalhadas. Um dos filtros mais interessantes foi convidar várias vozes, incluindo críticos de arquitetura, curadores, editores, ambientalistas, locais e internacionais, para formularem novas narrativas, trajetórias e questionamentos a partir desta coleção, com tours guiados e disponibilizadas posteriormente online.

Objetos como imagens do projeto de planejamento urbano de Masdar -uma cidade sustentável para 6 mil habitantes perto de Dubai, de autoria do escritório inglês Foster + Partner, contíguo a um projeto de Playground para 1.200 crianças em Copenhague, problematizam por exemplo dois modelos distintos de cidade. Destacam-se os projetos de arquitetura “sustentáveis” socialmente e não somente ecologicamente, e experiências que atravessam vários circuitos sociais-financeiros-ambientais-ecológicos, como a pesquisa de tecnologia de construção em argila desenvolvido por Martin Rauch (e que atualmente está construindo o Ricola Herb Centre na Suíça com Herzog & de Meuron), ou o casaco feito à mão de autoria a partir de saris em Bangladesh, parte da atuação integrada de intervenção urbana e espacial e econômica pelas arquitetas Anna Heringer & Veronica Lena. Maquetes de projetos icônicos como o pavilhão do MVRDV em Hamburgo ou um edifício residencial em construção de Stefano Boeri em Milão, apontando para diferentes discursos de “arquitetura verde”.

O mais impactante é relação entre uma ecoesfera (ecossistema fechado em uma esfera de vidro) em uma mesa logo na abertura da exposição e no final a imensa imagem do planeta terra de 1968, produzida pela NASA, ressaltado na legenda pela fala do ativista Stewart Brand em sua campanha em 1966 para que a NASA tornasse pública uma imagem da terra inteira: “I realized that the sight of the entire planet, seen at once, would be quite dramatic and would make a point (...) that people act as if the Earth is flat, when in reality it is spherical and extremely finite, and until we learn to treat it as a finite thing, we will never get civilization right.” Indagação pulsante sobre nossos ecossistemas, a ideia de entropia, e qual presente desejamos para nós agora?!

Dentre os setenta eventos da OAT em Oslo, a exposição no Museu Nacional- Arquitetura, “Far Out Voices”, com curadoria de Caroline Maniaque-Benton e Jéremie McGowan, apresenta um raro e incrível arquivo de iniciativas nos anos 1960-70 – com trabalhos de Steve Baer, Jay Baldwin, Graham Stevens dentre outros – incluindo o o lendário catálogo “The Whole Earth Catalogue” dentre outras publicações e fotos de edificações construídas somente com material reutilizável, advogando por uma arquitetura e tecnologia alternativas. São práticas espaciais, modos de vida, conceitos de ecologia vitais, porém marginalizados, que delinearam a genealogia da consciência ambiental na arquitetura atual, sinalizando uma inflexão histórica chave para a contemporaneidade.

Seja em Oslo ou em São Paulo, Shenzen ou Lisboa, visando o diálogo com públicos diversos e não somente entre pares da profissão, essas bienais e trienais apontam para a relevância política da arquitetura como ferramenta que afeta a vida coletiva – composta de humanos e não-humanos – com implicações locais, regionais e global, contribuindo para mudança dos nossos paradigmas e modos de viver mais conscientes, do necessário com o suficiente.

Fui convidada pela Embaixada da Noruega no Brasil para visitar a 5a Trienal de Arquitetura de Oslo em 2013.