Carta ao meu tio
2014

para Atlas Solitude (julho 2015)

São Paulo, 26 de Dezembro, 2014

Querido tio Totonho,

Compartilho nesta breve carta um ciclo pessoal, que se entrelaça com a cidade de São Paulo, onde nasci e cresci. 2006 oo 2014. São 8-9 anos cronológicos, dos meus 33 aos 41 anos: tempo-espaço de reaproximação contigo, de reinvenção e reflexo de mim mesma.

2006. Minha experiência paulistana acontecia com a exo experimental org. e o edifício Copan. Desde 2002, eu fundei e codirigia a exo, plataforma de pesquisa artística e urbana situada no Copan. Na metrópole de 20 milhões de habitantes, esse ícone moderno construído nos anos 1950-60 no centro histórico, condensa 5 mil moradores em seus 1.160 apartamentos e 30 andares, além de lojas, cafés e restaurantes no térreo. Sua presença marcante curva na paisagem e a heterogeneidade de narrativas e modos de viver me encantavam, em contraposição às segregações sociais e territoriais desta cidade. Meus dias eram atravessados pelo zumbido constante da metrópole, o céu com seus desenhos inconstantes e a vista panorâmica ad infinitum de prédios, cortada ao norte pelas montanhas, enquadrada pelo brise-soleil no alto do 27o andar, que tornava a cidade uma continuidade do meu pequeno apartamento, e me impulsionava para a lida cotidiana. A exo foi uma ferramenta aglutinadora de vozes, olhares e práticas estéticas e políticas para pensar e representar as trajetórias urbanas e transformações em curso de São Paulo.

Foi no lapso que se abriu no deslocamento radical da intensidade urbana nos trópicos para o isolamento na floresta germânica, durante a minha residência na Akademie Schloss Solitude em 2006, que conheci um mundo outro, do candomblé contemporâneo anarquista de Aruanda. Um mundo que passou a ser minha casa, minha fonte, minha terra, seja onde eu estivesse: Stuttgart, Berlim, Basel, Nairobi, Beijing, Ordos, Londres, Milão, Brasília, Salvador, Fortaleza, Recife, Manaus, Belém ou Nova York. Anos depois, decido voltar à São Paulo para morar mais próximo da Aruanda.

2014. Aos sábados, viajo uma hora e pouco e 44 km do centro da cidade até o terreiro em Cotia, no subúrbio oeste da metrópole. Nesses anos, ao longo do trajeto surgiram favelas, autoconstruções, muros, shopping centers, altas torres em condomínios fechados, mais carros e rodovias, numa urbanização predatória. A mata atlântica próxima ao sítio também está ameaçada. Ao revés, em Aruanda plantamos muitas árvores, flores e encontramos água. O mistério e a pluralidade dos Orixás, das entidades, das pessoas e narrativas nos moldam e são moldados, junto ao ritmo dos tambores, pontos cantados, danças, comidas, roupas, guias, modo de viver singular, estética e política, ritualização da vida. Um método baseado no pensar, agir e sentir ao mesmo tempo, como presença da individualidade e domínio da própria verdade. Minha vivência paulistana e nos mundos não se faz mais dicotômica entre natureza e cultura, ambiente e urbano, moderno e não-moderno. Os pontos riscados no chão de terra pelo babalaô Kabila Aruanda me fascinam, são desenhos-ferramentas de conexão entre chão e céu, terra e cosmos, de compreensão do efêmero. “Fazer candomblé é fazer arte”. E de suas mãos, tio, faço as minhas mãos e conto minhas histórias com composições, palavras e desenhos.

com alegria e gratidão,

Ligia