bosphorus conversations

Istambul, quarta, 10 de outubro, 2012

Hoje acordei mais tarde... dormi outra vez mal, acordei à noite, sentindo gripe, tentando dormir...acordei muitas vezes, mas a última já era tarde...mais tarde que ontem....tomei banho, me troquei e saí...almoçei uma salada generosa, com limonada com hortelã, e um expresso no final, no mesmo café da esquina de casa. Saí andando em direção ao mar...meu objetivo era chegar ao Haskoy Spinning Factory, onde estava sendo montada a exposição. Desci até o mar em direção ao porto do ferry que achei levasse para lá...mas estava errada...com comunicação difícil com funcionário do tram, descubro que tenho que pegar ônibus para chegar ao meu destino. Ele me diz um número da linha, e atravesso o trânsito caótico e espero o mesmo chegar. Entro, pergunto com o mapa se ele me leva ao meu destino desejado...Fala pouco inglês, e me pergunta se falo francês...nos comunicamos então um pouco melhor...Ele me diz pra esperar, que é outro ponto, outro ônibus que me leva lá...falamos do trânsito, realmente terrível congestionamento em Istanbul, por volta das 4h30 da tarde...

Céu azul, sol, passeio à beira do Bosphorus, circundando a cidade, e aos poucos vou reconhecendo os lugares por onde passeei domingo, o museu de arte moderna por fora, o bairro próximo de novas galerias, os minaretes, e atravessamos a ponte para um terminal de ônibus mais largo, com ônibus mais antigos e o motorista - sem me cobrar passagem - me direciona a pegar o ônibus número 47. Tento encontrar e não consigo...pergunto de novo a outro motorista de ônibus parado...ele me leva até a plataforma e fico na fila, atrás de um casal com bebê pequeno. Ao entrar, reconfirmo com o motorista, que com seu cigarro, entende o mapa e a palavra Haskoy e me confirma que sim. Tento pagar, fila atrás de mim, sei que custa 2 tk, mas só se paga com cartão - similar ao bilhete único em São Paulo - e uma senhora se oferece para pagar o meu e lhe dou as moedas. O ônibus fica cheio, nesta outra borda de Istambul, da parte antigo, uma fila infinita de ônibus de tourismo estacionados. No ônibus, uma tela demonstra os pontos que se sucedem e descubro o ponto que quero descer..ufa! Estou no ônibus certo. Ele cruza outra ponte e retornamos ao lado east, onde estava e subimos contornado o mar. Às vezes mais adentro, às vezes na borda, com territórios do exército, com casas bem mais antigas e largadas, com vida urbana mais de bairro e não turística. Chego, demoro um pouco para encontrar o lugar, outro bairro, mais distante do Beyoglu e da parte central, perto do museu de transportes. (...) Decido ir embora. Pego outro ônibus que vejo que o ponto final é a Praca Taksim, central, perto de casa. Como uma banana, outro senhor faz o mesmo com ticket pa mim novamente. Céu escurecendo, volto pra casa, leio e respondo emails, e saio pra jantar pizza de novo no mesmo lugar do almoço. Pra variar gatos por todo canto, alguns um tanto histéricos (risos), estrangeiros em todas as mesas, inglês, francês e turco consigo identificar. Tomo um vinho pra ver se me ajuda a dormir mais cedo, desenho, escrevo e faço anotações...

istanbul, segunda, 08 de outubro, 2012

Ontem à noite fui jantar com meus tios. Eles estão hospedados perto da Praça Taksim, coração de Istambul, lugar movimentado, cheio de gente na rua, turistas, hotéis, Mc Donalds, padarias locais, muitas misturas. Lugar onde à tarde havia tido manifestação com polícia e gás lacrimogênio e violento ("Istanbul is a highly contested city"), mas que só presenciei o carro de polícia na praça. Fui caminhando do apartamento em Beyoglu pela avenida mais movimentada de gente, com lojas globais e locais. É uma avenida larga, onde passam pedestres e um bondinho no centro (durante o dia, num ritmo lento). As pessoas se organizam organicamente nas direções opostas, e percebo que na ida e na vinda, eu caminho na direção contrária da mutlidão, num passo mais apressado, menos do flaneur ou do consumista...

Jantamos num restaurante turco para turistas, perto do Hotel numa rua-calçadão, daqueles que tem um host que vem te convencer a sentar no restaurante, em mesas do lado de fora. Eles foram divertidos, e acabamos convencidos. A comida estava ok. Comi um peixe dourado na brasa, com salada e o conhecido chá de maçã. Depois eles me acompanharam até a praça e início da mesma avenida movimentada...No caminho, paramos numa loja incrível de doces turcos, com nuts variadas, saborosas. Adoro esses doces, e montei uma caixa de sortidos pra mim para a semana!! nhami nhami! Ainda fomos a outra padaria e comemos uma espécie de pudim de chocolate que compartilhei com minha tia.

Não dormi muito bem, cheiro de cigarro no apartamento e barulho do ar condicionado do vizinho junto à minha janela do quarto me atrapalharam um pouco (mais jet lag!). Acordei às 3am e fiquei lendo...terminei de ler outro livro do Henry James, A madona do futuro. São dois narradores, mas o principal conta a história de um pintor mais velho que conheceu em Florença, que sempre esconde-se e adia pra começar a sua obra prima, a sua madona, mas não consegue, e é só palavras e observações, e o adiamento constante de sua expressão e vivências, até que confrontado por este narrador , então jovem. Após convivência entre os dois, o pintor o leva para conhecer a mulher que admirava tanto como sua própria madona. O narrador compartilha com ele que ela já estava velha para ser sua inspiração para madona do futuro, e é então que o pintor se dá conta de que 20 anos se passaram, que não fizera nada, e acaba adoecendo e morrendo em seguida. Reconheço-me até recentemente neste pintor, mas já não estou mais neste lugar. Foi um impulso interessante e provocador ter lido nesta madrugada, neste começo de viagem e estada em Istambul. Acabei demorando pra dormir, e acordei às 10am, mas muito cansada, dormi de novo, e levantei somente depois das 13h, correspondendo ainda ao horário de São Paulo.

Saí por volta das 2pm com meu lap top e tudo, dia mais cinzento, garoa esparsa durante a tarde...fui atras do café "Journey" que havia ido ontem com a Camila, para comer e é super confortável para trabalhar, mas não achei. Me perdi entre o mapa e as ruas tortuosas da cidade, e fui parar do outro lado, longe, noutro bairro bacana, Galata! Passei por ruas especilazadas em instrumentos musicais, outra em iluminárias, outras com mistura de comércio local e para turistas... muito turista nesta região ainda, assim como eu, estrangeira.

A cidade é linda, as paisagens e rasgos que se abrem para o mar e outro lado são incríveis, as cores, as texturas, os gatos na rua, as pessoas. É muito gostoso se perder... Fiquei caminhando, acabei almoçando num restaurante mais turístico, um kebab gostoso, com um gato dourado que ficou ao meu lado querendo comida (!). Comprei uma blusa bonita pra mim, um livro do orham pamuk com contos mais curtos "Other Colours" (assim como eu, vi outros turistas em Cafés com seus livros do Pahmuk). Eu li "Istambul" quando cheguei em Basel em 2007, foi tão bizarro ler este romance em outra cidade, e uma espécie de estrangeirsimo duplo...e agora escolhi este de ensaios e contos. Comprei tambem um livro da Celine Condorelli, artista-arquiteta curadora de Londres, que se chama "Support Structures" da Steimberg Press, que está sold out na editora, e fiquei feliz de encontrá-lo!! foi numa livraria pequena " Robinson Crusoe" com livros diversos, de arte, filosofia, literatura, inglês e turco e outras línguas, bem bacana. Quando encontro lugares assim, fantasio e me imagino um dia, mais velhinha, dona de uma livraria bem bacana, com café, lugar de encontro, assim como foi a "Casa" como era chamada a editora e livraria do J.O. nos anos 1930 no Rio... quiçá em 2030?

No caminho de volta, já com sol e garoa ao mesmo tempo, e o céu se abrindo, final da tarde, parei na esquina da minha rua num café - desses em que as pessoas ficam trabalhando nos seus lap tops, lendo por horas, sentados à janela e na beira do bar, maioria mais jovens, alguns turcos e muitos europeus no fluxo do tempo que fiquei por ali. Comi uma torta doce deliciosa e tomei um café com leite grande, escrevi mais um pouco no meu caderno e desenhei também...adoro desenhar, o olhar fica mais atento, minha mão escorre, vou observando e me aproximando mais do lugar, das coisas, que estampam em mim...adoro esta sensação, sinto mais intimidade e liberdade simultâneas com o lugar, com as coisas...

Voltei para o apartamento há pouco, final da tarde, já não chovia mais, e após levar o lap top pra passear (!) escrevo. Meus vizinhos falam alto, conversam uma língua que não reconheço, o cheiro de cigarro melhorou, pois deixei o ar condicionado funcionando à tarde, e havia deixado janelas bem abertas pela manhã...