Estúpidos e Inúteis
anotações sobre a obra Stupides et Inutiles (2007) do artista Aston na exposição Africa Africans
Museu AfroBrasil, 2015


A escravatura atlântica é o único complexo servil multi-hemisférico que transforma pessoas de origem africana em mercadorias. É, por esse facto, a única a ter inventado o Negro, isto é, uma espécie de homem coisa, de homem metal, de homem moeda, de homem plástico. É nas Américas e nas Caraíbas que os seres humanos são transformados, pela primeira vez na história universal, em criptas vivas do capital. O Negro é o protótipo deste processo.[1]
Achille Mbembe

Um cortejo de cavaleiros ¬circunda um mapa do continente africano de onde partem grandes embarcações e pequenos barcos, corpos humanos amontoados em massa e espalhados jogados ao mar. Feitos manualmente, esses elementos em miniatura são compostos por materiais descartados do consumo cotidiano como tampas de garrafas, embalagens de plástico, pedaços de madeira, fios de metal e outros fragmentos. Desenham a projeção de um casco de navio, demarcando uma extensa área no chão da exposição Africa Africans – arte contemporânea (25 de maio a 30 de agosto, 2015) no piso térreo do vão central do Museu Afro Brasil. Essa instalação-escultura Stupides et Inutiles (2007), do artista beninense Aston, sinaliza e problematiza os processos intrínsecos históricos e contemporâneos do tráfico de africanos negros escravizados para a América, da colonização, da diáspora, do capitalismo e do consumismo exaustivo de mercadorias e pessoas e do planeta. Aston nos dá a ver o quão estúpidos e inúteis fomos e seguimos sendo e as forças em jogo... Esse episódio histórico sintetizado no tempo-espaço pela miniaturização dos elementos expressam uma força eloquente gigantesca.

Stupides et Inutiles (parte da coleção do Museu Afro Brasil) dialoga com várias outras obras desta exposição, e com uma parte significativa da produção artística contemporânea em África: 1) seja no reaproveitamento e ressignificação de materiais e mercadorias descartados – como no caso das tampas de alumínio achatadas de garrafas de licores e de outras bebidas alcóolicas (que são produtos da colonização) costuradas com fios de cobre compondo imensas superfícies maleáveis em Skylines (2008) do artista El Anatsui, 2) seja na reflexão sobre o tráfico de africanos escravizados, do oceano ‘Atlântico Negro’ – presente nos fantásticos desenhos do artista beninense Julien Sinzogan dos navios negreiros com corpos, velas, conveses e elementos extraídos das máscaras Egungun (dedicadas aos ancestrais), ou com 3) as migrações de forças e regimes de signos nos processos violentos de colonização – como ressaltados nas obras de Ynka Shonibare Mbe, com sua marca registrada do uso dos tecidos Dutch Wax, e especificamente a disputa entre ilhas fictícias, entre protestantes e católicos, em Egg fight (2009). Além, claro, 4) das vizinhanças próximas (também no espaço expositivo) com práticas e múltiplas camadas dos vodus – como nos trabalhos de Gérard Quenum (série Os Veteranos, 2010) e de Kifouli Dossou – do Benim, antigo Reino de Daomé, de onde vieram tantos africanos para o Brasil, como ressalta o diretor curador Emanoel Araújo no texto introdutório desta exposição:

O Benin tem sido terra fértil para as artes tradicionais e contemporâneas, talvez pela grande tradição religiosa dos vodus, talvez pelos antigos reinos que existiram desde o século XVII até o XIX, quando foram destruídos pelas forças francesas do General Dodds, talvez porque tenha desenvolvido uma história oral materializada nas bandeiras de apliques, ou nos Asen, objetos funerários que hoje se exibem no Palácio Real de Abomei – verdadeiras e extraordinárias esculturas com emblemas simbólicos dos antigos reis –, ou por estar nos escultores populares e criadores materializar as lendas dos deuses, as máscaras Geledes, os totens, os ibeji, os Legbas, as placas que anunciam cortes de cabelos, fotógrafos, costureiras e muito mais obras que por si só são alimentos para a criação dos beninenses.[2]

Serge Aurelien Mikpon, conhecido como Aston, nasceu em 1964 em Cotonou, no Benin, onde vive e trabalha. Músico e artista plástico autodidata, seu estúdio em Cotonou fica em um corredor entre duas oficinas de conserto[3], repleto de esculturas feitas de objetos cotidianos descartados, coletados, agrupados, manipulados e ressignificados pelo artista, como um bricoleur. Operando a partir da coleta de objetos, de fragmentos de mercadorias cotidianos descartados e assemblage, Aston manipula e agrupa miniaturas humanas, de plantas, animais e navios, etc. Ele compõe grandes instalações que apresentam acontecimentos coletivos significativos, como as instalações Le tour de France (2005 – com mais de 800 personagens sobre a volta ciclística francesa) realizada na França, Solution Finale (2012) sobre a tentativa de extermínio dos judeus pelos nazistas apresentada na Bienal de Arte Contemporânea do Benin (2012), ou Stadium (2014) de um estádio como espaço público com um jogo de futebol em curso, presente também em Africa Africans (coleção do Museu). Suas criações implicam em complexas relações entre artes tradicionais e contemporâneas, com grande impacto visual e crítica aguda socioambiental e política do tempo do nosso mundo contemporâneo.

Stupides et Inutiles de Aston materializa, nos captura (“obra de arte como armadilha”[4]) e dá a ver o que o pensador africano Achille Mbembe em Crítica da Razão Negra (2014) argumenta sobre a invenção do Negro como protótipo no “primeiro capitalismo” do que hoje se constitui como norma, ou pelo menos como condição das humanidades subalternas no neoliberalismo contemporâneo, “a par com o aparecimento de práticas imperialistas inéditas (...) que constituem, no fundo, uma forma de produção de novas subespécies humanas votadas ao abandono, à indiferença, quando não à destruição.” (...) Em “um tempo marcado, entre outras coisas, por uma crise das relações entre a democracia, a memória e a ideia de um futuro que a humanidade no seu conjunto poderia partilhar”.[5]

[1] Entrevista conduzida por Arlette Fargeau com o pensador africano Achille Mbembe sobre seu livro Crítica da Razão Negra (2014) (publicada no Le Messager Out 3, 2013) in revista online Buala: http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/a-europa-ja-nao-e-o-centro-de-gravidade-do-mundo
[2] Araújo, Emanoel, Introdução, in Catálogo Africa africans: Arte Contemporânea. São Paulo: Museu Afro Brasil, 2015. p.20
[3] “The new generation has also attracted his attention, including Aston, whose studio, stuck in a corridor between two shops is packed with sculptures made from salvaged everyday objects: toothbrushes, batteries, cooking utensils” Jean-Michel Champault General Director of African Artists for Develoment - AAD, in Benin October, 2012 in http://aad-fund.org/en/aad-in-benin-to-meet-artists/
[4] Gell, Alfred. “A rede de Vogel: armadilhas como obras de arte e obras de arte como armadilhas”. In Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais EBA UFRJ. Rio de Janeiro : 2001.
[5] Entrevista com Achille Mbembe in Revista Buala sobre seu livro Crítica da Razão Negra (2014): “O Negro é uma invenção daquilo a que, no livro, eu chamo «o primeiro capitalismo». O tempo do primeiro capitalismo — pelo menos tal como eu o concebo é dominado pelo Atlântico. A época moderna propriamente dita começa com a expansão europeia, a dispersão dos povos e a formação de grandes diásporas, um movimento acelerado de mercadorias, de religiões e de culturas. O trabalho do escravo negro desempenha, neste processo, um papel relevante. Era, assim, necessário determo-nos neste tempo longo sem o qual não se percebe nada da realidade contemporânea.” In http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/a-europa-ja-nao-e-o-centro-de-gravidade-do-mundo